o homem da máquina fotográfica
Paulo
Prazeres
Olhando pela janela, o que Josué via era um país sem alma e
completamente enterrado. Nos rostos suspensos da gente ele já não conseguia
distinguir os seus sorrisos, nem as suas vontades. Era como se os corpos fossem
breves e existiam por existir. Sem sentido. Os seus ecos, as suas vozes, também
eles ficavam perdidos no ar, suspensos em partículas etéreas que se esfumavam
pouco a pouco.
Anos antes, quando Josué enfrentava uma situação daquelas, o seu
rosto era de assombro. Mergulhava a memória em busca de desesperos que pudessem
despertar tais monstruosidades, mas ao fim de um tempo, o necessário para
repensar na dor, a sua atenção voltava a recair sobre o rectângulo minúsculo da
sua máquina fotográfica e, automaticamente, os seus olhos disparavam fotogramas
atrás de fotogramas.
Agora, com o peso da idade, o seu consciente estava como aquela gente
toda: adormecido. Era como se o povo já não tivesse nada para cantar. Era como
se já não houvesse nada a glorificar. Apenas a morte era real, verdadeira. A
morte e a estupidez dos homens.
Josué quis afastar todas aquelas imagens que o haviam assombrado
no passado e, por isso, demorou-se naquele cenário previsível em que agora
vivia. Guardou em recantos da memória as imagens que a sua lente sigilosamente
havia fracturado ao longo do tempo e decidiu-se a observar aquilo que havia
visto em tantos sítios mas nunca ali tão perto. Estava tão perto da guerra que
havia-a ignorado, simplesmente. Não sabia se por desprezo, medo, horror ou
cobardia, mas simplesmente havia-a abandonado para poder desfrutar de outras
guerras menos dolorosas. Sabia agora que era puro engano.
Aquilo era tão doloroso como em outro lugar qualquer. Os rostos
suspensos das gentes eram tão iguais ali como o eram no Iraque ou no
Afeganistão ou no Irão ou em Israel ou no raio que o partisse.
O inferno tinha forma humana. E o que o despoletava mais não era
do que a raiva e a insegurança que provinha do coração dos homens. Das cinzas
nascemos e nas cinzas morremos. É antigo. É verdadeiro.
Josué abandonou de vez os braços ao longo do corpo e, impotente,
deixou que os olhos da sua máquina fotográfica não mais registassem a miséria
humana. Ficou ali, apenas ali, em silêncio, absorvendo o ar fétido que dos
mortos emanava, a poeira que o vento teimosamente levantava, até lhe doerem
todos os ossos do corpo.
Para onde quer que olhasse, Josué revia a mesma aflição que vira
em todas as guerras que pudera documentar. E estava farto. E era hora de
abandonar a pátria que o vira nascer, a pátria que lhe dera um sentido para a
vida, a pátria que julgara idílica, a pátria pela qual gritara sempre que a
selecção marcava um golo, a pátria que éramos eu, tu, ele, nós.
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