mais do que um ultimo festim
Paulo Prazeres
O sol descobria já as arestas dos edifícios quando parámos o carro. Bebemos meia garrafa de bourbon e ficámos com os olhos parados a ver as quedas verticais dos insectos, indiferenciados ao voo irregular da morte.
Fumámos um cigarro no silêncio da espera e queimámos o corpo com a ponta dos dedos. Escrevemos aos astros com a tinta da língua na tempestade dos nossos corações, riscámos o espaço com palavras sem fogo e bebemos a água dos corpos no limite infernal das máquinas.
Subimos às bocas marginadas pelo vermelho da carne e estoirámos o lixo do ventre no espaço infímo que nos separa de Deus. Ficámos depois sem movimento, abraçados pela inquietação de um peso sereno: o meu sexo projectado no interior do teu: a minha boca suspensa no perfume mágico dos teus seios concretos.
E quando nos beijámos pela última vez a linha do horizonte sobrevoava com exactidão a locomotiva hermética do nosso corpo. Havia um circo de movimentos em fusão no deserto da nossa alma. Fantasmas sem expressão ganharam força e a necessidade doentia de ficarmos eternizados também: quer na pele do coração, quer na liquescência do sangue.
Puxámos o cão dos revólveres e corremos as persianas dos olhos gretados. Os corpos expeliram o vinho do cérebro e o mundo perdeu-se na linha do último festim.
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