terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

27.

baixa-mar


Paulo Prazeres







Submerso entre alguns livros abertos estava o cadáver de uma mulher. E de vez em quando a maré subia até tocar-lhe os pés nus, para depois fazer a viagem de regresso, indiferente como só a maré sabe ser. Eu e a minha guitarra olhávamos para o cadáver sem dizer nada, também nós indiferentes.
Ao certo não sei, mas um homem pode sempre inventar as coisas à sua maneira. E era precisamente o que eu estava ali a fazer, agarrado ao silêncio da minha guitarra. Imaginei noites de frio intenso na penúria de um quarto qualquer, um corpo despindo-se de outro corpo, o álcool correndo nas veias, o belo veio virginal trespassado, e um corpo morto.
Eram quatro da manhã e o frio caia sobre mim como uma pesada manta de retalhos. Queria falar mas as palavras fugiam-me muito rapidamente. De qualquer forma, tinha de partir, era urgente partir.
Andei então pelos bares da cidade à procura de conforto. Procurei alguém que escutasse o primor da minha guitarra, alguém que me abraçasse. E então a noite tornou-se dia e eu corri sem parar. Cai depois na areia molhada, junto dos teus pés brancos. Esperei ver-te erguer os braços e suplicar-me os lábios mas em vez do toque das tuas mãos, foram os dedos grossos de um homem que me fizeram acordar para a realidade. Conheci então o rosto da morte. Um rosto largo, de imensos olhos fundos e vazios, de pele rosada, e de um bigode sem fim. À tua volta cresceram então outras tantas formas idênticas à do meu interlocutor. Algumas faziam-se passear com máquinas fotográficas e outras, empunhando bastões e sorrisos de poucos amigos, rodeavam-te os pés brancos.
Vi-os afastarem os livros de cima de ti, os livros que tanto amavas. Vi George Orwell tombar junto dos teus seios rasgados enquanto Woody Allen se enterrava na areia da praia. Boris Vian deslizou-se por entre as tuas magníficas pernas brancas e António Lobo Antunes brindou-te com alguns gracejos de mau gosto. Depois levaram-me, os braços apertados entre mãos que me espremiam como se fosse um limão.
Quando a guitarra me caiu das mãos olhei uma última vez para ti. Tinhas a boca roxa e do canto dos lábios pendia um fio de sangue. As vagas tornaram a cobrir-te os pés brancos e depois desapareceram no mar, bem junto das suas irmãs. Alguns caranguejos aconchegaram-se ao feto do teu sexo aberto e eu virei-me, esquecido que aquela mulher eras tu. Ouvi os caranguejos atropelarem-se uns aos outros enquanto a tua carne ia sendo devorada por todos eles.

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