a minha continua solidão
Paulo Prazeres
Na penúria do meu quarto sorvo cigarros atrás de cigarros. Sei que às vezes abuso e ponho-me a imaginar a sair do escuro para o seio da claridade. Mas é-me impossível e ás vezes não faz sentido. As horas são apenas números vazios, viagens sem regresso. É então que me sirvo de copos de whisky até cair em pleno sono. E pelo cansaço que o frio dormente em mim instala, páro o silêncio e penso em ti. Por vezes, falamos pouco. Sei que gostas de me atirar palavras sinceras, cheias de encanto. Mas, isso pouco me importa, visto agoara não passares de um mero réptil que em tempos me encantou, um amanhã finalmente sem amanhecer. E, enquanto danças para mim, vou sorvendo mais um cigarro entoando sonetos num lugar qualquer, correndo numa viagem sem fronteiras pelo cérebro adentro. Depois, seguimos algum tempo juntos, vivendo uma vida apressada de palavras sem fundo. Fixo então o olhar na garrafa embaciada de whisky e vejo-te partir. E é nessas alturas que enfraqueço, aquando o vertiginoso arrepio do espectáculo se reduz a uma veemente melancolia. E enquanto eu prossigo esta malfadada saga de estar só, longe de ti, distante das tuas palavras nuas, tu deixas simplesmente de existir.
E é nesses dias, naqueles em que tu não vens, que as mulheres no meu abrigo bebem a TV, sovem cigarros e amam-me. Adoro estas pequenas prostitutas que me fazem aquilo que tu já não fazes. Chapinhamos todos na calmaria como cães uivando o penoso desejo intenso que nos corre nas veias. As horas tornam-se compridas e deixam de ser aqueles estúpidos números vazios que me rodeiam o cérebro. Sirvo-me então de mais um cigarro e após o amplexo molhado das nossas tripas, abandono-me a um pedaço da cama, sonolento. E é nesta altura que realmente me sinto vivo, capaz de suportar a ideia de que já não existes mais.
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