alguém...
Paulo Prazeres
Os olhos deixam simplesmente de ver as coisas como elas são quando chego ao sexto whisky, sabe?, é como se as silhuetas se transformassem num imenso mar vitreo de pequenos pontos luminosos, espraiando imensas vagas de espuma no areal branco de praias desertas. É como quando uma mulher se despe. O calor meigo das nádegas sobre o nosso ventre nu, e tudo se transforma num carrocel de infância, onde o riso se prolonga sem fim pelas bochechas imberbes, alienado de sussurros menineiros.
Percebe aquilo que lhe digo? É como uma droga que nos eleva aos vapores das alturas, que nos dissipa gratidões que desesperam em eternas euforias de segundos, sabe?, é como se o éter daquilo que se é, fosse, irremediavelmente, aquilo que se não é. Não percebe, pois não? Na verdade, sabe, é só quando o sétimo whisky me atinge as entranhas que os pensamentos sucumbem a esta ideia de que, porventura, não sou aquilo que sou ou, aparentemente, pareço ser. Para ser franco estou-me marimbando para a porra que sou!, percebe?
Duma coisa tenho a certeza: sou um ser terreno, sim, um ser terreno que se arrasta de bar em bar, como um mendigo que anseia desejos que desconhece, palavras que não compreende, hálitos que lhe recordem passados incertos, rostos que despreza, percebe onde quero chegar?, é como se tudo aquilo que fui, tudo aquilo por que passei, se perdesse, voluntáriamente, da memória. É como se nem o próprio nome conseguisse lembrar ou nem mesmo tivesse ideia alguma da minha suposta existencialidade.
O que lhe quero dizer é isto, simplesmente isto: o álcool é a razão da minha existência. Não a razão simbólica de que o homem bebe para viver, mas sim, como uma força intrínsica que despoleta em mim o vício espiritual de viajar nos opulentos imbróglios das minhas paranóias, percebe?, não é o simples facto de beber que me enternece os pensamentos, é antes essa ideia grandiosa que é estar-se vivo. Ou seja, é ao saber que respiro, que fungo os resíduos tóxicos desta realidade que me cerca, é ao saber que o HOMEM se odeia e de que o fim do mundo é mais que previsível que consigo me enlevar, com desmesura, para o desmaio apocalíptico das minhas interrogações. É no álcool que me confesso, é no álcool que perco a tão pouca senilidade que me resta, sabe?, é no álcool que encontro aquilo que SOU e não aquilo que se pensa que sou, percebe-me, raios? É do álcool que espero as respostas que ninguém sabe dar, ou que, aparentemente, desconhecem que sabem ou desconfiam saber.
Continua a não me entender, não é? Não se preocupe, EU compreendo-o perfeitamente, porque é exactamente assim que me sinto: um INÚTIL.
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