terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

51.

o céu da boca


Paulo Prazeres







As mãos dela, muito brancas, poisam-se num arrumo nos ombros dele. A boca abre-se e fecha-se como a dos peixes na imobilidade das horas fundas. Voar é o gesto da mulher: diz ela percorrendo de contínuo os olhos dele. E ele para ela na animosidade dos amantes: lambe-me devagar o céu da boca como se a voasses. As mãos dela, muito brancas, passeiam-se de súbito na curva saliente do queixo dele. Que dizes?: a voz dela tem um odor a mar. A boca dele demora-se diante dela num silêncio açucarado de pássaro.
 Às vezes, quando estava sozinho, voltava-se de barriga para baixo, dobrava as mãos na nuca e deixava-se a escutar o coração bater até o corpo se desvanecer de inutilidade. E de novo a voz dela, demasiado alta, desabitada do chilrear dos pássaros: que dizes? E ele, tocando-a nas borboletas das sobrancelhas, num idêntico gesto de peixe ondulante: gostava que me tocasses no céu da boca.
 E então achou-se nos campos poeirentos do alentejo, debaixo de um céu de porcelana, vazio de nuvens, perdido num fragmento de cidade semelhante ao do mar sem ondas, quando ela, por natural curiosidade, pôs-se-lhe a regar a folha inanimada do céu da boca.
 Vão sair-me folhas da boca, dos braços, das orelhas, do meio das pernas: pensou ele com arrepios no corpo. E ela, recuando-se de cabeça à banda, a estremecer ainda na língua a presença oblíqua da saliva: queria tanto que morasses dentro de mim. E então lembra-se dos peixes suspensos de gestos nos aquários de todas as casas, a baterem as barbatanas quase microscópicas num desprezo infinito no marulhar da água choca.
O seu corpo desprende-se depois dos braços dele como um maquinismo cansado, derruba-se sobre a cama desfeita, aconchega-se no múrmurio desengonçado dos fantasmas feitos de um tempo muito antigo e olha-se no reflexo translúcido dos olhos dele: sem um mínimo de vergonha diz-me se és cobarde. E ele não foi cobarde.
 As suas mãos ladearam os flancos dela e a sua voz soou perfeita como a do universo: agora viveremos a vertigem de um corpo só: agora tenho-te perfeito aqui dentro de mim: diz ela para si, para um corpo abandonado, para um corpo que se resvala como o vento quando não sabe do que fala. 

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