falha humana
Paulo Prazeres
O anjo abriu as pálpebras e perdeu-se por entre as nuvens. O vento batia-lhe na cara. Os cabelos voavam em rodopios intermináveis, mas, o frio, esse, era-lhe particularmente insignificante. Estava ali para confirmar o poder das magníficas plumas que lhe desciam pelos ombros. Afinal, sempre tivera um fascínio terrível pelos pássaros e voar parecia-lhe de uma beleza infinita.
Ensaiou um gesto e a asa direita revolveu-se de uma forma estonteante. Pouco depois, o silvo brusco ao retorno inicial assobiava-lhe aos ouvidos. Os olhos brilharam intensamente quando um relâmpago estoirou no céu. Fechou as pálpebras e recordou-se dos tempos perdidos; daqueles em que a carne ainda se ressentia de todos os flagelos sensíveis. Demorou-se então a recuar na ampulheta do tempo, degustando todos os instantes por que se ia embriagando. E ao abrir os olhos, nem uma lágrima sequer parecia espreitar daquelas retinas sem cor. Não sentia nada, apenas um vazio lhe preenchia as entranhas. Mas, no fundo, ele até queria chorar. Queria gritar, queria cantar, sonhar, inventar, mas era-lhe impossível regressar à sua insignificante modéstia terrena. Muitas vezes imaginara-se um anjo a trespassar as nuvens feito herói de BD, escutando os segredos mais secretos dos outros, invisível à desprezível monotonia dos humanos, algures muito abaixo da sua instância. Mas, agora, o coração pulsava-lhe de uma forma brutal, movendo-se quase para o abismo do corpo.
O vento batia-lhe na cara, os cabelos dançavam, as plumas contorciam-se estoicamente no ar, mas o frio, esse não lhe penetrava a carne. E era disso que queria fugir. Levou as mãos aos olhos e inclinou um pouco os ombros para a frente. As asas estremeceram e um véu branco espraiou-se atrás de si. Imaginara-se sempre acima de qualquer ser e agora, quase a romper a barreira da intranquilidade, via-se desgostoso por tanta insensatez. Preferia morrer a errar na eternidade daquele castigo!
Abriu então os braços e, como que atiradas ao ar, as asas soltaram um aroma adocicado a algodão. O vento rasgou-se por entre as plumas das asas numa velocidade estonteante. Abriu as pálpebras. Lá em baixo havia gente. Lá em baixo estava o mundo. As asas bateram energicamente e todo o seu corpo foi apossado de uma excitação imprevisível. Os pés moveram-se e o corpo desprendeu-se do chão, fazendo-o deslocar- -se no ar. E era impressionante como as asas estrelejavam de energia!
E à medida que a viagem declinava em direcção à terra, o anjo prolongava as repetidas idas ao tempo já recusado, martirizando-se ainda mais. Queria tornar a sentir o sangue ferver nas veias, a carne rasgar-se ao toque do frio, o paladar do vinho na lingua, o peso do cigarro nos lábios, o sexo perfilar-se de satisfação. Mas, agora, tudo parecia já perdido, sem qualquer meio de acordar daquele maldito sonho. Estreitou as asas, preparando-se para o rodopio do choque já bem perto, quando, num repente, todo o seu corpo se tornou duma leveza insustentável.
E quando tocou o solo, o anjo sentiu-se morto, devastado por dentro. O vento bateu-lhe na cara e o invólucro da ossatura estremeceu-lhe como nunca de frio. Uma lágrima resvalou, silenciosa, pelo canto do olho até morrer nos lábios gratuitamente separados. Abriu os braços e nada se moveu no contorno dos seus ombros. Gritou alto o nome de Deus e um eco retumbante repercutiu--se à sua volta. Nos olhos brilhavam as lágrimas humanamente possíveis. Sabia-se tentado pelo poder e, consequentemente, humilhado por essa imodéstia particular de conquistar aquilo que lhe era perpetuamente proibido. Mas, agora, ardia-lhe no peito a perdurável consolação de se saber ainda vivo. Este sim, era o seu triunfo!
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