terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

38.

como quem penetra num quadro surrealista


Paulo Prazeres







Um buick vermelho roda vagarosamente no asfalto. É o único carro na estrada. de quando em quando o sol fica encoberto pelas nuvens. É outono e as árvores despem-se vertiginosamente na berma da estrada. Alguns mosquitos têm vindo a esmagar-se contra os vidros do carro e há folhas mortas espalhadas no asfalto. No leitor de cassetes a voz de Jim Morrison soa estridente. O cinzeiro do carro está cheio de beatas de cigarros. Algumas ainda vomitam pequenos fios cinzentos de fumo. Junto à caixa de velocidades há uma garrafa meio cheia de jack daniels. Ao lado, no banco do pendura, dorme silencioso o corpo de uma mulher. Ela tem um golpe fundo à volta do pescoço e a cabeça está tombada sobre o ombro esquerdo. Há um pequeno fio de sangue que se perde no fundo do decote do soutien branco. Tem vestida umas calças pretas de lycra e os pés estão nus. Tem uns dedos pequenos e as unhas estão pintadas de vermelho. Não se houve qualquer tipo de respiração. E não se lhe vê qualquer tipo de contracção na zona da barriga. Podiam cair-lhe todos os mosquitos em cima que ela não se importaria com isso.

Um buick vermelho está parado no asfalto. Não é o único carro na estrada. O sol está completamente coberto por uma nuvem enorme. Não existem árvores na berma da estrada. Os pequenos cadáveres dos mosquitos atropelam-se debaixo dos pés das pessoas. Há uma pequena brisa que muito vagarosamente sopra por entre os cabelos. É quase de noite. Vários corpos de mulheres estão estendidos ao longo de um precipício. Lá em baixo a terra parece desaparecer de vista. As mulheres estão nuas e os homens que as rodeiam não parecem tristes. Há um odor intenso a sangue no ar. Nenhum dos homens diz nada. Apenas o esbracejar de asas de alguns mosquitos ainda vivos parecem verdadeiros. E então acontece e ninguém sabe se aquilo tem mesmo de ser assim. E antes dos corpos das mulheres se esmagarem de encontro à terra escura, milhares de estilhaços dourados desprendem-se dos seus cabelos e ficam a vaguear de um lado para o outro até se transformarem em borboletas multicolores. Ninguém sabe porquê mas quase que conseguem ouvir Sam Shepard dizer: «esta deve ser a época do ano em que têm que morrer».

Sem comentários:

Enviar um comentário