terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

40.

para sempre


Paulo Prazeres







É verdade que nunca houve um momento em que nos déssemos. E é verdade que eu recordo para sempre esse tempo que não existiu nunca. Esse instante que nunca chegámos a ser. Essas fábulas que juntos inventámos. E para sempre eu recordo isso tudo. Os gritos dos meus dedos suspensos em ti. O frio cru da tua boca fechada. As palavras que nunca foram ditas. Para sempre o desconforto das palavras não gritadas. Para sempre um silêncio enorme. Para sempre o esvoaçar sem vento das asas dos teus braços tocando-me. Para sempre tudo aquilo porque não passámos. Para sempre o cálice do teu sangue nas minhas mãos. Para sempre o fruto do teu corpo sobre o meu. E para sempre essa intensidade do meu desgosto.

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