terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

30.

algures no vermelho da vertigem


Paulo Prazeres







O homem consultou o relógio com uma impaciência ávida e acendeu um cigarro. E como o fumo que se esvazia de um cigarro esquecido também ele se fazia esquecer das coisas da vida. Estava soterrado num cadeirão preto, à espera, à escuta de inquietantes sobressaltos que nunca mais chegavam.
Esperou até que a noite caísse para consultar de novo o relógio. Lá fora, o céu parecia vazio, ausente de um mundo que fervilhava bem cá em baixo. Talvez o céu tivesse essa mesma virtude de esquecer que todos os homens têm, pensou. Olhou de novo os ponteiros finos do relógio: os segundos avançavam energicamente perante a passividade burlesca dos outros dois ponteiros mais menineiros nos seus gestos, e isso deu-lhe uma leve sensação de vertigem. Era como se estivesse a olhar do cume de um arranha-céus, com o vento a fustigar-lhe o rosto, o frio arranhando-lhe a garganta e sem no entanto estar a cair no abismo, despedaçado de qualquer equilíbrio. Mas, no entanto, havia algo que se despegava de todo o seu ser. Era a mente. Era ela quem se esparsava livremente nas abas do céu aberto.
Lá fora a sirene de uma ambulância crepitou entre as árvores. O homem tornou a consultar o relógio. Era tarde. Ouviu as badaladas de um sino algures numa igreja da aldeia transformarem-se em contínuas explosões de desespero. Pegou no maço de cigarros quase vazio e atreveu-se a adivinhar coisas que nunca lhe haviam passado pela cabeça: o peso certo de um corpo morto; as formas exactas de um músculo deformado pela potência do ácido; os passos catastróficos que um cão daria se uma serpente se envolvesse à volta do seu pescoço felpudo e os gestos suplicantes que uma mulher faria se fosse violada por trás com uma barra de aço.
O homem pegou num cigarro e encostou-o aos lábios. Sabia-lhe bem o calor da mortalha áspera adormecida entre os lábios. E depois fechou os olhos. O vazio dentro dele tornou-se mais leve e, pouco a pouco, começou a pesar menos do que o ar à sua volta. E depois evaporou-se. O tempo deixou de ser algo metodicamente importante, apenas o espaço parecia surgir como um símbolo fulcral de toda a sua existência. Alguns rasgos de verdadeira incompreensão começavam a incomodar-lhe as retinas fechadas enquanto uma amálgama de cores e sons atropelavam-se também agora vertiginosamente à sua frente sem qualquer espécie de ordem. O homem sentiu os olhos arderem e abriu-os com algum esforço. Nada parecia ter mudado. O cigarro continuava preso entre os lábios e a escuridão continuava imóvel lá fora.
O homem ergueu-se a custo do cadeirão preto e aproximou-se de um espelho pendurado numa parede em frente onde uma mescla de cores indefinidas dava vida a um quadro surrealista qualquer. Esquadrinhou todos os contornos do rosto e admirou-se em silêncio. Toda a sua face parecia normal, apenas o fulgor vermelho que os seus olhos expeliam era menos forte do que as outras vezes.

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