segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

09.

o meu inferno


Paulo Prazeres







A noite terminara já. Os meus dedos batiam compassos desordenados contra a curva adormecida dos teus seios. Algures, no íntimo do meu coração, entre o estrebuchar ansioso da alma que penava pelos teus beijos e o ataque delicioso dos teus lábios nos meus, uma sensação de ternura ainda se recolhia no seu  canteiro. E quando a língua espevitou entre os dentes, para cuspir a saliva espessa que ressonava insuportavelmente na boca, senti-me embriagado. Foi como se um beijo impossível de esquecer me tivesse entranhado na alma. Foi como se tivesse sido tomado por um delírio que não se quer perder.
Os olhos abriram-se, sorrateiros, e uma amálgama de brilhos eléctricos inundou-me o cérebro. Os meus dedos pararam de bater na curva adormecida dos teus seios e comecei a recordar-me da flor que começara a crescer no canteiro despido do meu coração. Recordei-me do assombro angelical que em mim se enraizara, por momentos, naquele marasmo maravilhoso que nos estraga os sentimentos e nos despedaça a alma num amplexo anárquico. Vi-   -me, depois, abraçado numa paixão que não me pertencia quando te vi sorrir para um céu que não era o meu.
Os meus olhos tornaram, então, a cerrar-se num silêncio do tamanho do mundo. A língua arrastou-se para o casulo incorfomado da dor, enquanto os dedos, inquietos, deixaram simplesmente de sentir a curva adormecida dos teus seios. E aquelas pétalas em queda, que a minha alma regozijara enquanto o álcool se interpelara em absurdas vontades sem nexo, perdiam agora toda a leveza que pareciam suster. E como todas as vezes, quando o peito se rasgava no impulso ordinário de te cobrir o corpo de beijos, deixavas de ser aquela mesma pedra que todas as noites me recolhia no aconchego casto dos teus braços frios. E como todas as vezes, apetecia-me enroscar no meu próprio corpo e desejar jamais acordar sozinho, outra ve, neste maldito inferno.
Sei agora que a flor que cresce no canteiro despido do meu coração poderá jamais ter vida. É verdade que sempre considerei Deus do meu lado, mas agora, começo a duvidar. 

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