terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

15.

uma estória sexual em manhãs iguais a tantas outras


Paulo Prazeres







E como todas as manhãs, ambos acordavam ao mesmo tempo. Ele, inquieto, remexia-se debaixo dos lençois insuportavelmente pesados. Depois, sentava-se na cama e servia-se de um cigarro, esquecido do corpo que a seu lado se remexia sem parar. Ela, inebriada, esfregava os olhos ainda moles com ambas as mãos e perdia-se a escutar o silêncio que vinha da janela.
E enquanto a luz matinal invadia os seus corpos, uma expressão de medíocre aborrecimento assomava-lhes ao rosto. O quarto enchia-se então de um odor intenso a sol e a tabaco. O fumo — rodopiante malabarista de rumo incerto — começava já a entranhar-se nos lençois, nas paredes e nos olhos.
E como todas as manhãs, mais como um capricho do que outra coisa qualquer, ela mordia o lábio inferior com tal empenhamento que o sangue costumava sobrevir como uma imensa torrente. E ele, envolto na sua auréola de fumo, limitava-se a socorrer-lhe com uma passagem rápida dos seus lábios pelos dela. Não sabiam porquê, mas todas as manhãs tinham o hábito de se cumprimentarem assim.
E era então que tudo acontecia. Tal como dois cães insatisfeitos, ambos se lançavam avidamente um contra o outro, até os lábios se esmagarem com estrondo. E aquela manhã não era excepção, pois a luz matinal penetrava já sem piedade, queimando-lhes toda a carne. E como duas vítimas encantadas pela temerária exultação do bem-estar, ambos se entregavam à criatividade do demónio, ignorando o bendito transbordar que os seus corpos poderiam alcançar. E, como sempre, esqueciam-se que esse transbordar pelo qual ansiavam, nada mais era que um refúgio das suas próprias frustrações: duas almas à muito expulsas do chão da terra...
E entre essas guinadas constantes a que as suas bocas se entregavam, eles não ficavam impunes à selvajaria da vida. Recordavam-na. Havia sempre algo para recordar: um adeus, um sorriso ou um desdém até. E era então que o passado se lhes desfilava abruptamente na memória. Na verdade, eram sobressaltos fugazes, contudo, conscientes. E ressentiam-se sempre com essas imagens rápidas, quase clandestinas. Já não recordavam muito bem o quê, mas, estava tudo ali: a miséria, o desprezo, o ódio, a morte. e ficavam sempre assim, apáticos, a sorverem-se um ao outro, como se mais nada no mundo lhes interessasse, além de sentirem a textura das suas peles e o contacto das suas carnes. Amavam-se.
E como todas as manhãs, após a troca electrizante daquele momento que lhes separava os corpos, ambos paravam os olhos um no outro esquecidos de tudo. E nada mais acontecia. Nada mais havia para além daquele instante.

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