segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

08.

fome de viver


Paulo Prazeres







Acordei sem saber porquê.
Um gosto a sangue seco estendia-se ao longo da língua, feita mortalha de áspera de azia e ronco de boi velho. Os olhos abriram-se lentamente, como se fossem absurdos ferrolhos perros adormecidos num feroz sonho decadente, onde uma figura assazmente corpulenta crucificava sem nenhuma razão aparente, pequenos soldadinhos de chumbo em enormes cruzes de pedra branca perante os olhares indiscretos das putas inchadas e dos assobios gastos dos camionistas embriagados.
Quando as retinas sentiram o peso inconfundível do escuro, senti-me como um anjo perdido na bruma de uma rua qualquer, sem um demónio a quem pudesse perguntar coisas absurdas, ou tagarelar um pouco sobre a existência circular e protuberante que as mulheres possuem nos peitos tenros e deliciosamente carnudos, como duas maravilhosas taças de ópio, submissas ao toque indulgente das nossas ansiedades, das nossas necessidades. Não, não havia nada, senão o extenso vácuo de uma escuridão muito fria que me subia espinha acima, tal serpente ébria de pecados inimagináveis.
No entanto, havia algo que me escalavrava a golpes certeiros de talhante sem escrúpulos as paredes esfaimadas do cérebro, como se sibilantes cânticos gregorianos irrompessem em tropelia pelas artérias coaguladas de sujidade, a gritarem ordens de superlativa brutalidade para superlativos magnatas do clero, a roçarem os eclesiásticos pénis da benção de Deus nas santificadas grinaldas de vénus que as freiras arrastam entre as pernas, como quando caminham sorrateiramente para o aconchego casto da almofada do confessionário.
O sangue, adormecido no suco pastoso que ruminava na língua como um enfadonho peso despropositado, tornou-se ainda mais áspero e um ataque convulso de tosse extorquiu-se dos pulmões com assaz violência. Sentei-me na cama e fiquei, por momentos, a extravasar a garganta com ruidosos latidos de tosse de cão, enquanto o corpo, tal um pequeno torniquete a girar uma peça de madeira, começava a ser desventrado por uma imensa dor que gritava lancinantes uivos de fome.
Depois, quando os latidos bruscos de tosse pareciam querer aumentar e o escuro frio do quarto se tornava mais frio ainda, uma luz tremendamente branca, como os reluzentes fachos de penas que cobrem o dorso dos arcanjos, irrompeu-me pela vista dentro, tal gume afiado de espada invisível de um pirata com perna de pau.
Na soleira da porta, onde sem piedade a figura esbelta da minha ninfa me estraçalhava o rigor do corpo com a claridade despida do seu ventre, um cadáver despenteado sorria-me uns lábios grossos de doninha gorda, enquanto os dedos, manchados de sangue, tentavam marcar as unhas na carne macia das coxas do seu carrasco.
Lá fora, os humanos enfardavam mata-bichos quezilentos de café e torradas secas e, os pássaros, espraiando as asas no aglutinado deserto do céu, fugiam das bátegas pesadas da chuva, crivando guinchos em apressadas curvas heróicas nas acinzentadas esquinas de algodão. A madrugada, na sua majestosa cor de Inverno, parecia querer romper as nossas cabeças, malgrado a minha malfadada fome de cão.

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