terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

54.

everything must die*
     * canção do grupo brasileiro TETINE


Paulo Prazeres







Assim como as copas das árvores que, ao longe, brilham intensamente com o sol, estavas tu: longínqua. Desperto depois com o estrépito do comboio. Um soluço. Um estremeção. E só depois arranca. Demoradamente.
E por instantes a tua imagem segue-me. E por instantes revejo tudo aquilo que fomos: uma sinfonia acabada. Não mais que um caleidoscópio, quase incessante, do teu rosto sobre o meu.
Depois a tua imagem dá lugar a um horizonte musculado de cinzentos. Às vezes a praia aparece, como um rasgão, num turbilhão de ondas. E depois desaparece. E eu encontro-me, por vezes, a olhar restos de casas perdidas. Jardins desfeitos. Pessoas que passam: algumas que ficam na retina, por segundos. E por segundos, algumas que não as vejo sequer.


Mais à frente o comboio volta a soluçar. São guinchos de coração cansado. E depois pára. E a tua imagem está de novo ali. Parada. Olhando-me. A transparência dos teus olhos invadindo-me. E eu invadindo-te.
Cubro-te, então, como em tempos te cobria, o corpo com o meu corpo. E achamos que, afinal, não há nada a fazer: assim como assim, já não temos idade para recuperar o passado. E assim como assim, sei que já não nos amamos.
E num relance os teus olhos escorrem água, parece-me. Não queria nada que as coisas fossem assim. Não queria que víssemo-nos mais, porque temos de morrer. Um para o outro.


E é de novo o comboio que me desperta. Arranca um novo soluço esganiçado e então parte. Um cheiro acre, a queimado, invadindo-me o corpo todo.
E depois olho-te, mas tu ficas ali tão simplesmente só. O vento a bater-te nos cabelos: revoltos. O sangue inchando-te os lábios: carnívoros.
E então desapareces. E eu também. Depois encolho-me. Tudo tem de terminar, penso. Assim como as estrelas. Ponho-me em silêncio. A escutar. Fecho os olhos e… nada. Uma linha escura e fria à minha volta. Deixo de ver. As casas perdidas. Os jardins desfeitos. A praia. As pessoas. Tu.
E então uma música gigante, como um rio que corre infinitamente, vem-me à memória: “Everything must die”.

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