até cair
Paulo Prazeres
Acordo com uma revoada de pássaros na cabeça. Abro os olhos. Parece- -me ser o voo nocturno de um pássaro, mas não. Um céu azul riscado de asas penetra-me no sono interior dos ossos.
E nada nesse momento me pôs a vida em movimento. Era preciso tentar dormir de novo. Sem sonhos nem pesadelos. Cair no mais profundo esquecimento. Ter o corpo abandonado ao esplendor da terra. Era preciso silenciar o corpo todo.
Fecho os olhos e vejo o meu sangue rumorejar como um rio. Às vezes o sangue limpa a dor da alma. E então pergunto-me o que faço aqui — profundamente infeliz, a vida secando em arquipélagos de álcool. Ser o resto de um passado que não deixou memória é o que mais desejo.
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