terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

37.

num deserto qualquer


Paulo Prazeres







O camião parou junto às bombas de gasolina. Uma nuvem cinzenta de fumo ficou a pairar no ar. Um falcão atravessou o céu num grito espavorido. Um chevrolet azul escuro parou à minha frente. Um rapaz saiu e dirigiu-se à máquina das coca-colas. Havia também uma máquina com cigarros.
Até mim chegaram pedaços de ossos que foram arrastados pela força do vento. Do camião saiu uma mulher com um termo líquido debaixo do braço. Andava com dificuldade. Trazia vestida umas calças largas de ganga e um cigarro esquecido entre os lábios. O rapaz voltou ao chevrolet com duas latas de coca-cola.
Atrás de mim a porta do café abriu-se. Uma onda de calor invadiu-me o corpo. Alguém gritou o meu nome mas não liguei. O rapaz entrou no chevrolet e o vidro da janela do lado do pendura desceu. Uma cara risonha assomou à janela. Era loira e tinha uns lábios muito finos. Sorriu-me uns dentes brancos e depois cerrou os pequenos gomos dos lábios. O rapaz lançou uma gargalhada e o chevrolet disparou uma enorme nuvem de pó quando arrancou.
Atrás de mim apareceu um velho com um chapéu na cabeça. Sentou-se numa cadeira de baloiço junto à porta do café e retirou uma harmónica do bolso das jardineiras. Escondeu depois a harmónica entre as mãos suadas e levou-a à boca. Não sei se aquilo que ouvi se podia chamar música mas que me aliviou o espírito aliviou. E houve mesmo um momento em que deixei de existir. Breve, mas existiu. E quando me encontrei de novo, dei de caras com a mulher do camião. Não sorria. Não chorava. Era-lhe indiferente que eu estivesse ali a observá-la, muito agarrada ao termo líquido como se a sua vida dependesse sómente da integridade daquele objecto. Ou então, pensei eu, era apenas louca. Nada mais.
O velho guardou a harmónica entre as mãos e deitou a cabeça para trás. Tinha uma pele muito enrugada e suja. Do nariz desprendiam-se pequenos tufos crispados de pêlos. Não tinha bigode e a barba estava mal feita. E depois chegou o autocarro. Peguei na mala que estava junto aos meus pés e chamei pelo teu nome. Não vieste logo. Nem depois. Não chegaste sequer a vir. E eu não me importei. Entrei no autocarro e encostei a cabeça ao vidro da janela. Não pensei em nada. Adormeci depois com o fantasma da rapariga de à bocado a infiltrar-se nos meus sonhos.

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