terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

46.

voando sobre o que é por baixo


Paulo Prazeres







As mãos estendidas de uma maneira cortante, quase roçando o corpo dele. Os cabelos a afundarem-se devagar como a esconder o nervosismo do coração. E depois aquela pressão a magoar-lhe o corpo, derramada sobre si, demorando-se num silêncio entrecortado ou profundo.
As pernas arqueadas, movendo os quadris ofertados, firmes. As mãos estendidas, quase imóveis, sustendo os gritos de uns dedos tensos. O olhar vago, derrubado numa total indiferença. As coxas entreabertas num calor peganhento, estremecendo sob uma pressão que lhe acaricia devagar o clitóris.
E ele movendo-se, o calor a descer-lhe pelo corpo em avalanche, inundando-a o suficiente para respirar melhor. As ancas empurrando-a num desespero absurdo, quase enterrando de uma só vez toda a sua monstruosa sede. Os olhos roçando ao de leve os olhos dela, demorando a vê-la mover-se, mergulhando-a cada vez mais como se a quisesse rasgar.
E enquanto ele se derrubava sobre ela, já quase livre, na espera branda de um gemido de animal, ela entreabria-se à medida que o corpo deslizava para dentro de si. As mãos estendidas, as ancas dançando desordenadas. O ventre cor-de-rosa respirando no álcool da própria distracção. A vagina húmida abandonada ao sono louco de um anjo anónimo.
E ele, de manso procurando o fundo da vagina dela, numa infatigável confissão dos ardores do corpo. A língua passando lentamente pelo sal dos mamilos, para a sorver em seguida no sabor violento do esperma.
Ela atinge o arrepio da faca do orgasmo no momento em que as mãos dele se estendem na obscuridade dos seus cabelos. Depois a febre incerta: um aperto nos seios e na vagina. O céu torna-se num fundo de cimento. Um pequeno desequilíbrio ainda a vaguear-lhe nas coxas e nas veias. Ele torna-se ausente, subitamente distante, e cada vez mais longe da boca entreaberta dela.
Nua, ela demora-se tombada sobre a cama. Os olhos fixos na liquescência ácida que se lhe escorre do sexo aberto. as mãos estendidas, cansadas, os dedos imobilizados, as veias, o coração, o corpo todo. Os seus gestos são depois demorados, apenas atenta ao silêncio devorando-lhe os nervos. As paredes do quarto transformam-se então em jardins quadriláteros. Em campos de papel que se rompem num creme celulósico.

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