terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

34.

( é sempre ) tarde demais


Paulo Prazeres







Já não gosto de ti. Já não suporto esse teu modo de falar. Faz-me confusão a maneira como olhas para mim. E irrita-me saber que vives debaixo do mesmo tecto que eu e que dormes na mesma cama que eu. Se pudesse, dormiria com o cão. Mas não temos nenhum cão. E o chão está fora de questão. Não me agrada.
E cada vez é mais difícil esta vida que levo. Já é tarde para dizer que não te amo. Já é tarde para dizer que não quero filhos. E já é tarde para me ir embora.
Custa-me já viver todos os dias. Estou cansado. Dói-me o corpo do peso do teu corpo. E é tarde para voltar atrás. É sempre tarde demais quando se quer voltar atrás.
Resta depois o silêncio. O esforço vão de escondermos mentiras. Passa então a haver corpos que se amam sem o quererem e passa a haver cochichos que se segredam apenas para se criar conversa. Deixa de ser amor aquilo que se sente. É apenas uma necessidade. Uma necessidade que o corpo não nega.
É por isso que eu não me quero ir embora. É por isso que ainda aqui estou.

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