terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

35.

ao longe o rio


Paulo Prazeres







Com a tristeza amortalhada ao canto dos lábios e a profundidade dos anos marcada nos vincos do rosto, o homem começava por revistar os bolsos das calças em busca de um cigarro e só depois é que distinguia, para lá das pulsações de farol a estrebucharem num coração já cansado, a quase translúcida fieira de ninfas acocoradas nos cascos dos navios, a ondularem consoante o humor das marés, o sorriso preguiçoso de quem ampara um peso delicado ou o beijo de uma vaga.
Tinha alturas em que se despedaçava a olhar o rio. Nem mesmo ligava às rolas que se estendiam nos beirais das casas em frente a conspirarem para ele as pequenas línguas de desdém com que o vigiavam. Por vezes, ensaiavam um estudado bailado de asas e mudavam-se para o parapeito da sua janela, sempre atentas, tentando ganhar a confiança dele. Depois ficavam ali, como ele, quietas, caladas, a escutarem os risinhos das ninfas lá longe, perdidas entre a espuma das ondas e o metralhar rangente dos navios.
O homem acendia depois o cigarro, rebolava os olhos pelas rolas a seu lado e acenava para algumas que se penduravam nos algerozes e nos bicos dos telhados em frente. Abria uma garrafa de Super Bock, pegava num pires de tremoços e tropeçava nos fragmentos da memória. Amparava o rosto com as mãos e deixava-se arrombar por um forte sentimento de culpa. E mesmo antes de acabar o cigarro acendia outro. Troçava depois para as rolas uns tossidos despolidos a cheirarem a nicotina e estendia os olhos para o rio que, pouco a pouco, empalidecia com a luz do sol.
Em baixo, na rua, os cães começavam a procurar restos de comida para aliviarem o desespero da fome matutina. E enquanto isso, mulheres de sorrizinhos inocentes a cheirarem a tabaco, apareciam à janela ainda a limparem da curva dos seios um qualquer fio de esperma esquecido. Além do odor a tabaco, cheiravam sempre a peixe grelhado e dormiam em cubículos piolhosos onde todas as noites se entregavam ao fastio dos mendigos. De quando em quando desatavam aos insultos e aos pontapés quando alguém desenhava para elas o formato de um pénis com os dedos das mãos. E corriam meses que aquilo era assim.
Só quando o pires de tremoços ficava vazio, o homem olhava o relógio de pulso e multiplicava a atenção na desordem da rua. Tentava depois assobiar uma musiquinha idiota e acabava por amparar a duas mãos o peso desconfortante da barriga. Na verdade, tentava defender-se a si próprio, contra os tanques da miséria que lá fora anunciavam a felicidade do diabo.
Depois esquecia tudo. Fechava a janela, torcia a boca e saía para a rua, desejando cheirar o perfume barato das putas a soprarem beijos que se lhe não destinavam. Talvez, costumava pensar ele, que o corpo de alguma delas se libertasse da ironia a seu respeito e o quisesse nessa mesma noite. Aparava então as farripas grisalhas do cabelo e afastava-se dali, de braços erguidos, medindo inconscientemente a tenra maciez dos ventres lisos das ninfas, as quais pareciam incapazes de se desapaixonarem por Camões. E quando chegava ao rio, de costas voltadas para o tropel da cidade, o homem imaginava-se a navegar de lábios firmes contra o tufo de pêlos do ventre de uma qualquer ninfa que, mesmo assim, ainda o aguardava.

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