um eléctrico desejo
Paulo Prazeres
A noite está-se a tornar impossível.
O suor, que teima em não me deixar sossegado, mistura-se cada vez mais com as poucas lágrimas que ainda me restam. Os dedos começam a tremer sob o pretexto insano de não mais pararem. A caneta, embriagada na cova humedecida entre o polegar e o indicador, espernea-se disparatadamente, traçando aqui e ali rabiscos infantis de criança analfabeta.
Antes de partir queria deixar escrito as palavras certas, eu sei; mas, já não me jorra mais aquela gota desvairada de imaginação que, várias vezes, me obrigou a escrevinhar no papel acetinado do teu corpo, minha querida, alvoradas inteiras de desejos eléctricos. Também não me recordo mais dos cochichos berrantes que os nossos corpos, tantas vezes, explodiram entre as risadas malandras que o álcool costumava espevitar, como também não me recordo sequer do teu nome. Agora só me resta esquecer as recordações irreverentes que foi a luxúria da nossa paixão, mas, até isso... até isso se torna difícil demais para mim.
É o álcool que me arrasta para estas divagações nostálgicas, eu sei, mas pelo menos tenho a decência de acreditar que este sufoco um dia terminará, porque é inevitável dizer que jamais encontrarei essa ingenuidade que é o sossego de se estar morto.
E será, minha querida, este resto de whisky que ainda me resta que salvará o refúgio eterno das minhas frustrações, que salvará o refúgio eterno dos pecados que não recordo ter cometido. Vejo já, além, neste céu negro que me abriga, as imaculadas mãos de Cristo a estenderem-me, sem remorsos, a piedade que os teus olhos nunca mostraram; vejo-O cobrir-me os ombros no abraço caloroso que de ti sempre esperei; como também O vejo cobrir-me os lábios com os beijos que nunca me deste...
Agora, minha querida, uma vez o meu último desejo se torna, a cada segundo que passa, mais real, só me resta esquecer essas lembranças parvas que me fustigam os pensamentos. Sei agora que nunca fomos nada um para o outro, uma vez nunca nos sentimos verdadeiramente amantes, uma vez nunca trocámos aquele electrizante momento que separa os corpos numa humidade embriagadora de álcool.
Sei também que, não fosse este resto de whisky que ainda sobeja neste medonho copo de plástico, onde os meus olhos se devoram num verdadeiro suplício de beberrão, provavelmente já me teria suicidado há muito. Mas esta chama de optimismo que ainda me arde nos olhos, como um consolo mesquinho — eu sei — nada me fará para tentar contrariar o destino que há muito me está marcado.
Um último trago, minha querida. Um último trago e a minha presença deixará de ser a desgrenhada aparência incómoda que sempre te dei a entender. Não me recordo do teu nome, é certo, mas peço-te, acima de todas as coisas, que perdoes todos os sentimentos insensatos que desperdicei no aconchego terno do álcool... enfim, que me perdoes por ser quem nunca devia ter sido.
Esta é a minha verdade; sim, e tal como diria a voz do poeta: « Como posso estar ainda vivo, se morri há já tantos dias!?... »
Mais um trago, minha querida. Mais um trago e esta angústia que, dia a dia, cresce progressivamente, deixará de me afligir para sempre.
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