maldita cara de boneca
Paulo Prazeres
Quando os meus dedos encontraram a pele macia dos teus seios, os olhos cerraram-se numa agonia espessa de vontades. O coração entoou a marcha grotesca duma ansiedade veloz, ao mesmo tempo que lá fora, entre as construções de ferro em espiral que se perdiam em tremendas berrarias de betão, os pedestres entoavam os cânticos pagãos do peso do álcool a ferver asneiras nas bocas húmidas das putas.
E eu, envolto no encanto que te saía dos olhos, como se estivesse embelezado pelas torrentes de sangue das chagas de Cristo, suspenso na eterna cruz dos Seus pecados, começava a acariciar-te o contorno quente dos lábios imóveis. Um fulgor magestático irrompeu-me pelas mãos e o sopro que saiu da minha boca permaneceu, por momentos, enraizado no intervalo curto dos teus seios.
Quando as nossas bocas, enfim, chocaram em desespero, num intrincado aperto de beijo, o motor rouco do meu coração entrou em pânico. Os dedos pararam de se saciar nos teus seios, e essa agonia que parecia romper do meu sexo parecia já não suster a vontade clássica de te transbordar as coxas com o suor do meu orgasmo. Era como se o meu corpo se recusasse ao encanto pérfido que o teu ventre não possuía, à beleza terna que os teus lábios não exprimiam, ao pulsar violento que do teu coração parecia não existir.
E foi quando o teu corpo tombou ao acaso, nessa espécie de sono calmo de vigília, onde as sensações simplesmente deixam de existir e onde as veias param de latejar sob a escama fina da pele, que me apercebi da moleza do teu maldito corpo de boneca insuflável.
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