terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

42.

atmosfera reduzida


Paulo Prazeres







Era já noite e pouco havia para fazer. Talvez contar umas últimas anedotas, beber umas quantas cervejas e falar mal uns dos outros. Era só o que lhes restava. E o charro que piscava de mão em mão. Por vezes acendiam-se grandes clarões no céu e toda a praça José Fontana explodia em pequenos estilhaços de junkies que se despiam em olhares sofrêgos e luzídios. Não procuravam nada. Simplesmente nada.
Falavam de filmes esquecidos, de histórias que ninguém recordava, de bebedeiras que procuravam repetir, de amigos que haviam desaparecido, de amores desencontrados e de camas vazias. E enquanto isso um outro charro tornava a piscar de mão em mão.
Não eram muitos. Tinham todos quase a mesma idade. Não se vestiam bem e não tinham razões para viver. Eram apenas nomes. Nada mais. Eram fantasmas de uma sala vazia. A dureza dos dias solidificados nuns olhos sem fascínio. O ofegante hábito de esquecer no silêncio de um cigarro.
Havia o Silvério mais o seu gravador Sony, ambos sempre numa sintonia desalmada, a berrarem as explosões dos AC/DC às rolas que nos ramos das árvores adormeciam enfadadas. Havia o JP sempre a contar as anedotas que ninguém queria ouvir. Havia o Sampaio mais a sua DT 50 a rugir jardim adentro. Havia a Geninha sempre enfiada em calças de ganga muito justas a revirar os olhos atrapalhados do Gonçalo que se mordia todo por ir para a cama com ela. E era o beto que fumava cigarros aperaltados numa boquilha de puta e diziam as más línguas que ele era um destemido gangster lá para os lados da Musgueira e que já havia morto dois ciganos numa rixa de droga. E era a Paulinha, sempre muito calada, atenta aos gestos dos rapazes, procurando neles algo que a pudesse excitar. Costumava dizer que os rapazes eram todos umas bestas, que só queriam foder e nada mais. Acrescentava depois, numa voz muito baixinha de mulher conhecedora, que todos eles eram uns merdas. Isso mesmo: uns merdas. Chegou mesmo a chamar filho da puta ao Beto quando este lhe apalpou o rabo muito redondo através do tecido das calças elásticas de cor castanha. A rapaziada toda a rir e a Paulinha a desaparecer na escuridão da noite. E o Beto, chateado, a procurar compor as coisas, pedindo perdão, chamando-lhe torrãozinho, princesa e amendoim. Mas ela desapareceu. Desapareceu mesmo. E o Beto arrependeu-se. Resolveu então ir arranjar coragem para bem longe dali.
Regressou pouco depois. Tinha passado um mês. Era sábado. Fazia sol e a praça José Fontana parecia na mesma. O Beto trazia óculos escuros, um bigode muito fininho, um brinco na orelha esquerda, um casaco preto de cabedal made in Italy e um sotaque espanhol muito esforçado. Havia desistido dos seus insustentáveis golpes de gangster bairrista e passara a gerir uma pequena casa de prostitutas algures no Algarve, dizia ele a passear uns dentes muito amarelos à plateia que o admirava como se de uma estrela de Hollywood se tratasse. e depois contava histórias. Muitas. Histórias de mulheres que devoravam consolos de homens cansados, que despiam o corpo por instantes de explendor, histórias de mulheres que se saciavam em riquezas sem fim. E depois contava mais histórias ainda. Histórias do outro mundo.
O Gonçalo, coitado, que não aguentou mais aquelas histórias sobre mulheres que se   deitavam por um punhado de notas verdes decidiu declarar-se à Geninha. Ela ajeitou as ancas nas calças justissímas, passou a língua pelos lábios, fitou-o sem interesse algum e mandou-o à merda. E mais ninguém voltou a ver o Gonçalo. Depois foi o Sampaio quem desapareceu. O rugido da DT 50 acabou por deixar de se ouvir a subir e a descer, num frenesim tresloucado, o empedrado do jardim. O JP suicidou-se em casa dos pais enquanto assistia a um episódio do "Ren e Stimpy" numa TV emprestada. O Silvério penhorou o gravador mais a cassette dos AC/DC e fugiu para o norte enrolado num lençól branco salpicado de letras vermelhas que gritavam a olhos grados EU SOU DEUS. E a partir dessa noite os charros deixaram de piscar de mão em mão. Acabavam sómente por morrer na infelicidade daquele que cuidava das prostitutas do Algarve que nem sequer chegaram a existir.
E depois o rumor do vento ocupou-se das almas. As árvores envelheceram e as folhas foram levadas pelo tempo. O céu ficou completamente descoberto. Os bancos do jardim foram apodrecendo e o musgo dos anos começou a envolver o olhar já gasto do último sobrevivente. Mas ao rumor do vento há ainda uma linguagem que aflora na laguna de águas mortas da praça José Fontana. Quanto tempo ainda?
A sala tornou-se então mais vazia. Os fantasmas arderam, reduzindo a cinzas, a nudez de um jardim já sem muralhas. Quase se ouve o crepitar das chamas e as árvores  sentem-se sós e nuas.

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