terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

18.

alma dorida


Paulo Prazeres







Olhando pela janela do meu quarto, apercebo-me que as árvores encontram-se nuas, já não suportando aquelas magníficas pétalas verdes que tanto esplendor lhes dá. É o Natal que chega, recordo. Algures lá em baixo, na sala, junto ao aconchego morno da lareira, onde as pessoas se reúnem festivamente, cresce uma árvore. Esplanadas de ramos emergem dum tronco longínquo quase a tocar o céu. É espantosamente elegante. Mas, essa árvore que cresce lá em baixo, moldada pelas mãos dos homens, não me dá qualquer espécie de alegria.
Agora, uma vez adulto, recordo com saudade o fantasma da tua estátua de carne. É certo que não poderei mais encardir-te o volume espesso dos lábios vermelhos, nem sentir as tuas mãos injuriando-se nas minhas, como é certo que jamais poderei escutar a tua voz sussurrando ao vento, nem acariciar-me nas pétalas doiradas do teu cabelo; mas, embora isso, o meu coração continua imensamente provido com esse odor celestial que sempre te fez sentir mulher. E há alturas que desejo mesmo poisar os lábios nos nenúfares dos teus seios.
E à medida que vou olhando as árvores esquecidas lá fora, afogadas umas nas outras, uma certa angústia vai crescendo dentro de mim. É certo que já não moras aqui, nesta espécie de volúpia aparentemente duradoura que é a vida. Aqui, onde se constroiem futuros sem significado e onde se morre fuzilado pela intempérie da idade, da doença e do amor, já não me julgo capaz de continuar acordado. E isso leva-me a pensar que também eu devia partir, deserdar-me da terra e espraiar-me pelos céus adentro; transbordar as nuvens num cavalo elástico e chegar-me até ti. Ah! como desejo ser terra e cobrir os ramos da tua árvore!
Mas, agora, uma vez as janelas em frente vão ficando iluminadas de várias cores, recordo então de novo que é Natal e acomodo-me. Acomodo-me ao teu olhar, às tuas retinas piscando-me beijos silenciosos, às tuas pernas envolvendo desejos quase histéricos, ao fantasma do teu umbigo imensamente fundo. E, enquanto isso, enquanto vou recordando que já naõ existes mais, a árvore lá em baixo, na sala, vai crescendo. Um cintilar aqui, outro cintilar acolá e um outro mesmo na copa da árvore. Ela resplandece de inúmeras cores. Há luzes que piscam freneticamente, há bolas prateadas que reflectem o nosso olhar e há fitas que nos rodeiam. Embora o teu fantasma seja já uma copa descarnada onde não desfraldam mais as bandeiras dos teus braços, é-me impossível, por um instante que seja, pensar que estejas morta. Agora, uma vez adulto, amo-te ainda mais.

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