nunca se passou nada
Paulo Prazeres
As minhas vontades são as vontades de ontem. Ontem a luz preenchia todo o meu espaço. O tempo todo. Hoje não me resta nada. Nem mesmo tu. Hoje o corpo limita-se a estar ali. As minhas resistências esfumam-se ao acaso. Estou velho, é o que é. Não se passa nada e nada se vai passar porque nunca se passou nada. É assim a vida. Quando nos limitamos a pensar naquilo que não devemos, as coisas não se sucedem, limitam-se a estar ali, a magoar-nos. É assim comigo. É assim por causa de ti.
Ontem eu queria-te muito. Hoje quero-te ainda mais. E amanhã talvez mais ainda, não sei. É preciso resistir. Ainda é mesmo preciso resistir? Sim, acho que sim. É difícil pensar que se teve tudo e que afinal nunca se chegou a ter nada. Eu tive-te mas tu não me tiveste. Foi sempre assim. Nunca se passou nada. O nosso amor nunca foi amor porque nunca chegou a haver amor entre nós, apenas infantilidades. Mas eu amei-te. Tu não. Fugias sempre, e eu sempre te perseguia. E nunca chegou a haver nada.
Agora? Agora nada resta das nossas palavras, ou, quase nada. Talvez uns gestos, e são cada vez menos esses gestos. É bom que assim seja. As minhas vontades? Não, não são as vontades de ontem. Agora não tenho mais por que me preocupar. Estou velho, é o que é.
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