se eu pudesse, voaria por ti adentro
Paulo Prazeres
Gosto de ti. Não é por acaso que gosto de ti. Sempre apreciei a maneira como cruzas as pernas, a maneira como ajeitas os decotes das blusas. É formidável quando se está apaixonado. Tudo parece mais belo, mais fácil. Até mesmo as coisa mais feias perto de ti tornam-se incrivelmente belas. Talvez seja erro meu pensar assim, mas não interessa. A verdade é que só gosto de ti, e só de ti quero gostar. Mais nada.
Nestas alturas, quando os meus pensamentos se circunstanciam em recordar-te, um imenso reflexo de ti projecta-se em tudo quanto para mim significas. Não é só um mero fogo de vista, não. É amor. É como se todo o meu corpo caísse doente sem doença alguma, enfermo de uma febre sem calor. Mas há mais. A verdade é que tu não me conheces assim tão bem. Não sabes do que sou capaz. A negligência é uma atitude impura, de fracasso.
É certo que aquilo que me une a ti, que me faz calar as palavras mais desumanas e me faz subir aos céus, não é correspondido. Não interessa, eu sei. O que interessa é que só gosto de ti. Não é um simples fogo que me consome. É algo mais, é algo que me foge. É algo sem explicação.
Se eu pudesse, voaria por ti adentro. Mas não posso. Não me deixas. Sei que não me amas e, por um lado, é certo da tua parte, senão mesmo justo até, mas, por outro, é-me difícil aceitar isso (como se não o pudesse aceitar). Mas o certo é que não posso. Na verdade, quem sou eu para conseguires amar? Talvez ninguém ou talvez tudo. Se eu pudesse ser o melhor juiz para avaliar isso, dizia-to já, mas não sou.
Queria tanto sentir os teus lábios dançarem nos meus. Queria tanto saber que não te amo porque tu não me amas também, mas não posso, era como estar a mentir. Eu amo-te, isso é que é. E agora, a verdade é que recordo coisas que me disseste. Lembro que disseste que me amavas! Mas amar como se ama um amigo é o mesmo que esperar sem se ser encontrado. Eu sei que é cruel dizer isto, mas é assim. É certo que não posso comprar o teu amor como é certo não te poder vender a minha necessidade, como é certo que não desejaria pensar que tal fosse alguma vez possível.
Um desejo que eu tenho é este: podermo-nos amar acima de todas as coisas, como os poetas. É um vôo alto, concordo, mas verdadeiro. Não quero ser teu amigo. Quero mais. Os amigos são só para as ocasiões, é o que se costuma dizer. E eu não quero ser apenas mais um caso, uma ocasionalidade qualquer. Quero estar perpetuamente ao teu lado, aconchegado ao nicho do teu peito, a segurar os teus gritos, as asas dos teus braços. Tu és a luz, quem me dera ser o céu.
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