interiores
Paulo Prazeres
As crianças vinham da água, assoladas de uma alegria estrídula. À minha frente, o teu rosto parecia interrompido. Vem: disses-te, e tornaste-te presente. Não posso: disse, e por cima de nós as asas das gaivotas marginaram as linhas impossíveis do céu.
O vento entaramelou-se na geografia dos teus olhos secos e todo o ruído da paisagem chegou até nós. Fechas depois as mãos em concha como se a exactidão do mundo coubesse na postura simples desse gesto.
Riscas o ar com o calor da tua boca: aproxima-te, e eu aproximei-me: mais: o teu corpo é um manto de leões marinhos. As artérias do teu cabelo sangram a necessidade mortal do toque humano.
As gaivotas ondulam em múltiplas respirações e os bicos acabam por estalar a ferrugem cúmplice dos náufragos. Os teus lábios afastam-se com parcimónia: beija-me: se o mundo coubesse na tua boca: digo.
A água parece estagnada ao longe. Sinto depois a simetria da curva dos teus seios. O crespo dos mamilos. As tuas mãos. A margem de um colapso quase orgânico. E então beijo-te e o mundo afunda-se numa voz inacabada, num burlesco caos de sinónimos interiores.
Deito ao mar os resquícios do passado, a dor da carne, as esperas ressentidas e deslizo os dedos pelo perfil estático da aridez dos teus lábios. E então pedes de novo, num trejeito breve e incandescente: vem.
Afastamo-nos então da mancha crepitante que o sol moribundo transpira e espalhamo-nos no mar azul, nesse total resíduo da nossa própria cumplicidade. As ondas desenham severos recortes. Marginamo-las e a voz espalha-se numa gota cintilante. Eu digo: não me deixes, e sinto o licor que vazas da boca: não me deixes.
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