terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

31.

à espera da morte


Paulo Prazeres







Já não se contam pelos dedos das mãos os dias que aqui estou. As paredes estão cada vez mais escuras e o sol já não sorri como antes. Tenho a roupa completamente húmida e um odor cada vez mais repelente. A barba esconde- -me as feridas do rosto e os olhos pesam-me na cara. Não consigo dormir. Não consigo comer. É como se já não tivesse necessidade de nada. E cada dia que passa o corpo transforma-se em rápidas formas de morte. Parece-me que já não tenho dedos mas sim grossas membranas que se desfiam a cada gesto que faço. As pernas deixaram de suportar o corpo e passaram a ser duas estacas disformes enegrecidas pela porcaria e pelo peso dos insectos.
Junto de mim dorme o cadáver gasto de um hipócrita qualquer. A um canto da cela está um indivíduo sonolento que de vez em quando grita qualquer coisa que não consigo perceber. Há também um muçulmano que chegou hoje. Está nu e afirma ser filho de Deus. Tem a barriga rasgada e cheira mal como todos nós. E há o guarda que de vez em quando espreita-nos uns olhos muito gordos. É um indivíduo baixo, com uma corcunda no centro das costas, um nariz surrealista e umas surpreendentes mãos de padeiro. Tem a mania de me sorrir os dentes partidos enquanto passa com a chave da cela pelas grades.
Já perdi a noção do tempo. Não sei que dia é hoje e penso que nem o próprio guarda o saiba. Também não interessa. Já não tenho cigarros e nem vontade de pedir seja o que for. Também já não tenho a certeza da razão de estar neste buraco acompanhado de ratazanas que me vão devorando aos poucos a insuficiente carne que me resta. Ah, sim, agora lembro-me: acho que matei uma mulher quando tentava rasgar-lhe o ventre. Consideraram-me louco devido às drogas e internaram-me num manicómio onde o director mais se parecia com um Hitler saído de uma possível terceira guerra mundial. Lembro-me que houve um incêndio, os doentes progrediram as suas fantasias alucinatórias e massacraram-se uns aos outros. Eu tinha o cérebro revirado e uma fome enorme dentro de mim. Matei o Hitler e comi-lhe os intestinos. O meu corpo engrandeceu-se e tornei-me possessivo. Depois matei uma enfermeira da qual suguei-lhe o sangue que escorria a jorros da vagina estraçalhada.
E então fui apanhado. Embrulharam-me num colete branco cheio de correntes e espancaram-me até perder os sentidos. Agora não sei onde estou. Tenho o corpo livre mas os braços não se mexem. As pernas estão quebradas e os insectos são terrivelmente pesados. Acho que aguardam a minha morte.
Ainda há bocado o guarda passou por aqui e não me sorriu. Também não ouvi as chaves rasparem nas grades. Se calhar já estou morto, é o que é.

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