tão longe, tão perto
Paulo Prazeres
Se ontem tu me tivesses dito vem, eu teria ido. Hoje não. Foi apenas o rascunho de uma história o que ontem se passou. E hoje resta-me a saudade do teu olhar, é verdade; mas continuamos desconhecidos, e isso é bom. Não é nada do outro mundo este nosso amor impossível. Temos outras vidas, é certo, mas se ontem tu me tivesses dito vem, eu teria ido. Mas as águas do esquecimento correm depressa, não é? E há também a paisagem desses momentos que dentro de nós se reflecte. Reflexos — poderás tu dizer — de um lado do paraíso que não alcançámos, e é verdade; mas não o alcançámos porque simplesmente ontem tu não me disseste vem.
E hoje as tuas palavras soam roucas, apenas como meros restos de despojos. E é verdade que o fumo do cigarro não vence a memória e é verdade que este silêncio todo não ajuda nada. Mas se ontem tu me tivesses dito vem, eu teria ido. Dobraste apenas os cantos dos lábios e não disseste nada. E então eu deitei-me, apaguei a luz e adormeci.
E hoje escondi-me um pouco. Não tenho a menor saudade de ti, se é isso que pensas. Hoje foi apenas um momento vazio e nada mais. Amanhã será melhor. Amanhã encontrarei outra mulher. Perder-me-ei clandestinamente até esgotar todas as forças. Seremos estranhos na noite. Não importa. Haverá um quarto sem fantasmas. E se ela me disser vem, eu irei.
Sem comentários:
Enviar um comentário