branca
Paulo Prazeres
Costumava telefonar-lhe à noite, mas hoje não o fêz. Ela sentava-se na cama, os lábios muito apertados e um sabor estranho na língua. E era como se sentisse o peso todo do corpo: os cabelos repousados nos ombros e o peito muito suado.
Era depois invadida por uma total ausência. Sem sonhos nem pesadelos. Limitava-se a escutá-lo, como se apenas aquela vibração do outro lado da linha pudesse existir. E quando desligava a primeira sensação que tinha era de sede. Mas hoje ele não chegou a telefonar. Hoje ela não tinha sede, apenas uma sensação ainda maior de ausência.
Costumava depois esperar que a voz desaparecesse por completo da memória. E deixava então deslizar o corpo na cama, os braços e as pernas flexíveis. Fechava os olhos, deixava as mãos imóveis sobre o lençól, ancorando o corpo à solidão de um quarto abafado, e demorava-se deitada.
Mas hoje ele não chegou a telefonar. E então ela sorri. Sorri mais ao seu desânimo do que à sua momentânea expectativa. Acende um cigarro e pergunta-se se não era melhor dormir. Os cabelos espalhados na cama formam estranhos desenhos. E então a sua pele quase mármore mergulha num brusco silêncio entrecortado apenas pela frieza de um tempo sem movimento algum.
Costumava sentir depois uma indiferença quase alheia pela humidade da boca. E num último momento de esforço, como se pretendesse rebentar a frágil pele que lhe cobria o sexo, ela acariciava-se fitando o tecto do quarto, detendo-se às vezes em enormes quantidades de tempo, quando soltava aquilo que parecia ser um suspiro mais profundo.
Nestas alturas costumava escapar-se-lhe da pele e do centro da vagina um perfume fresco a morangos e a leite. O seu perfume estendia-se depois por todo o quarto. Enroscava-se nas coisas e perdia-se pelas paredes adentro. Deixava depois as mãos sobre a boca e estremecia como se um súbito vento a tivesse possuído.
E de manhã, ao acordar, parecia-lhe sempre que tinha o corpo ao acaso sobre a cama. Mas hoje ele não chegou a telefonar. Hoje ela sabe que amanhã não vai encontrar o corpo ao acaso sobre a cama. Talvez um pouco mais pálido, com um sorriso perdido no escuro da noite. Uma figura de mármore, fingindo-se atenta, prestes a erguer-se, ágil mas lenta, com um vestido macio colado aos seios.
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