terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

49.

incêndio


Paulo Prazeres







O homem sentou-se na terra e a cidade atrás de si incendiou-se numa luz pontiaguda. Os olhos ensaiaram movimentos de vigília e sentiu na ponta silenciosa do nariz a primeira bátega fria da chuva. Depois os olhos ficaram encharcados de humidade.
O horizonte tinha-se apagado e um último cacilheiro explodia ainda o peso da ferrugem no rio oxidado. As bátegas recortavam-se num incêndio ressoante sob o olhar calado das gaivotas suspensas no céu poeirento.
Cacilhas estendia-se ao longe, num nevoeiro cinzento de velhice, desequilibrando-se na moldura espalmada de um rio bordado a espuma. As gaivotas varriam o céu em todas as direcções empurradas pela luz trémula da lâmpada da lua.
 O homem sentiu os pés húmidos do frio e aconchegou-se mais à imobilidade da terra. A noite encostava-lhe ao corpo o vazio apavorado das crianças tristes. Estendeu depois para o rio as folhas carnívoras dos dedos num bafo mole de cansaço, e viu-se reduzido na ferrugem líquida do corpo do rio: tinha os olhos inchados de água e o coração cheio de susto.
Depois a cidade desapareceu e, com ela, todas as luzes se tornaram inocentes num fragmento de apocalipse. As gaivotas eram agora rastos desnivelados ao acaso no cartão húmido do céu e a chuva, incendiária e suspensa do nada, a lágrima gritante de Deus.
O homem levantou-se, levemente quebrado pela insónia dos ossos e decidiu-se pronto a cair para além da fronteira do mundo. Meteu depois a cabeça entre as mãos e rasgou o ar num ritmo de pavor: a água tocando-lhe a cabeça, depois os ombros e o tronco e as ancas e então as pernas. Parecia um pequeno músculo convulso no fundo da água. Houve um breve silêncio e depois um sopro pulmonar tornado paixão: como se o corpo todo fosse uma veia, o rosto como uma víscera.

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