terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

32.

era uma vez uma menina da aldeia


Paulo Prazeres







Tempos houve em que a mercearia do senhor Andrade era um desejado antro de peregrinação dos rapazes da aldeia. Corriam em bandos, devastados por um louco desejo de tocarem nas rendas do vestido da menina Célia — espantosa aparição que todas as manhãs sorria sem preconceitos para os rapazes que a devoravam com olhos doentios. Era também certo que durante o resto do dia ninguém mais a via uma vez enfiada em casa, atrás de um ferro de engomar mais gasto que a própria humanidade e a trocar de hora em hora a baba fedorenta dos filhos das outras senhoras que tanto a bajulavam pela tolerância que ela tinha para com as crianças.
Mas, apesar desse desconcertante desaparecimento, os rapazes da aldeia não desesperavam nunca. Na manhã seguinte ela reapareceria tão fresca e tão revoltantemente doce com aquele mesmo sorriso embalsamado de afrodite excitada. Os rapazes poderiam então saciarem-se de novo em escassos minutos de devota contemplação. Encolhiam então os ombros, sorriam desajeitadamente, alguns baixavam os olhos, outros tremiam de timidez com um rubor efervescente a crescer-lhes nas faces brancas, enquanto que os mais ordinários, destemidos de qualquer apreço, coçavam os testículos num arrocho de verdadeiros machos solitários.
No entanto, as mulheres que a desprezavam, simplesmente abanavam a cabeça e faziam o sinal da cruz em nome de uma salvação que se pedia iminente. E havia ainda os maridos. Senhores aflitos que espiavam com sabedoria adquirida aquele rasgo de perfume que lhes enchia os corações maltratados de bem-aventuradas esperanças de cada vez que ela por eles passava, remexendo os seios desprotegidos num decote profundo de rendas vermelhas.
E tempos houve em que a casa da menina Célia passou a alojar mais do que as imberbes crianças dos outros. Todos os rapazes a cortejavam numa amálgama de disparates prolongados em que as mãos subiam e desciam num galope sonolento as pernas da menina Célia a troco de uma nota enfesada de mil escudos. Não houve um rapaz que não tivesse despejado no colo da menina Célia as frustrações da idade e o desconsolo de se ser um peão numa aldeia onde ninguém conhecia a capital de Portugal e confundiam sempre a Foz do Arelho com o talho novo que abrira na aldeia vizinha. E não houve um rapaz que não ficasse a conhecer o gosto frutado que a menina Célia guardava entre as coxas, sempre sorridente quando um deles abria muito os olhos no momento exacto em que o seu amplexo crescia no corpo franzino de um pénis envergonhado.
E tempos houve em que a mercearia do senhor Andrade fechou para nunca mais voltar a desfilar, aos olhares traquinas dos míudos, as mesmas tangerinas doces, as mesmas alfaces verdinhas e os mesmos boiões enormes onde, muito sigilosamente, o senhor Andrade guardava os caramelos que vinham de Espanha. Também os rapazes fugiram, santificados pela promessa de uma vida mais produtiva na capital, da qual — corria o boato —, as mulheres desfloravam num à vontade sem escrúpulos os rapazes mais intimistas e conservadores que gritavam à boca cheia:
— Sexo só após o casamento.
E tempos houve em que a aldeia morreu. As moças, de peitorais enfadonhos e faces ruborizadas pelo cansaço do álcool, entregavam-se a pés juntos a um qualquer turista que, num acaso do destino, por ali passava enganado. E elas mostravam-se deliciadas com a desenvoltura da língua com que os "camones" as cumprimentavam, sempre acompanhados de um "fuck" que elas não compreendiam mas achavam giríssimo.
Algumas tiveram filhos louros, outras morenos e houve mesmo quem desse à luz uma criança preta. A aldeia entrou em rebuliço com os pais das moças a cometerem assassínios em série e a deambularem, pelas ruas quase desertas da aldeia, a euforia do vinho fora de época. Alguns chegaram mesmo a espancar as filhas até os pulmões deixarem de acometer espirros da fúria incontida.
Apenas os mais velhos, arrastados por uma enorme onda de nostalgia, permaneciam rigorosamente na mesma. Todas as manhãs encostavam-se às paredes devastadas pelo abandono da mercearia do senhor Andrade como se de um ritual matutino se tratasse. Puxavam então do maço de SG Ventil — que os trocos não davam para mais — e punham-se a remexer na memória cansada, recordando com fervor os gaiatos que dantes os enxovalhavam com a linguagem maliciosa própria da idade e das doenças que os consumiam aos poucos.
E quando o último fôlego derrotava de uma vez por todas o cigarro queimado até ao filtro, acabavam sempre por tocar no nome da menina Célia. Era sabido por todos que a menina Célia havia transformado muitos rapazes da aldeia em homens capazes de suportarem o odor do sexo e o formigueiro que costuma aparecer no corpo quando este cresce de vontades; e ninguém se importava com isso, uma vez que fazia bem à alma e dava genica para a lavoura, diziam eles. A menina Célia fora então o remédio santo que os rapazes podiam usufruir quando o corpo deles adoecia num inchaço constrangedor que crescia entre as pernas.
Depois a menina Célia foi-se embora e com ela o sol, a boa disposição, o nervosismo das mãos e a vontade de viver.

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