um bocado da minha carne
Paulo Prazeres
Pus-me a olhar o céu. Estava escuro. Lá fora, a lua cintilava magnificamente. O vento soprava de todos os lados. E de todos os lados surgiam rugidos desinibidos de vozes. Encolhi-me. No cérebro desencadearam-se-me volúpias há muito esquecidas. Afastei os olhos do céu e abracei-me. Não queria pensar. Não queria recordar. Era pior. Mas pior era não pensar: um vazio imenso costumava inundar-me a alma e logo uma depressão corroia-me os nervos. Ficava exaltado. Uma súbita violência despertava o animal que havia em mim e desatava aos gritos. Tinha de pensar. Tinha de recordar. Era necessário. Não queria morrer já.
O frio entrava-me agora na carne. As veias da fonte latejavam. Os pensamentos corriam incessantes. As recordações transbordavam-me de saudades. Sentei-me. O chão gelava. A carne estalava. E recordei-te: os cabelos longos, soltos, quase vermelhos; a boca dilatando-se, sorvendo a água dos meus beijos; as pernas compridas, femininas, a contorcerem-se. E depois os olhos — grandes, enormes como duas esferas prateadas, baloiçando as manchas das retinas numa cara esguia, branca.
Estremeci. Olhei em volta. Nada. As mesmas paredes desertas, os mesmos buracos espreitando-me, a mesma tarimba aguardando o cansaço do meu corpo. Os mesmos desejos de sempre, pensei, nunca eram reais. Apenas aquele vazio que me consumia a pouco e pouco era constante. Estava gelado. Os braços permaneciam na mesma: abraçados. Lá fora, a lua continuava imponente. O vento soprava agora de forma desvairada. As vozes chegavam- -me vindas de muito longe. A minha carne parecia querer desfazer-se. O cérebro derretia-se. Tinha frio. Tinha calor. Os pensamentos eram já insuportáveis pesadelos sem fim. Estava a morrer!?
E eis de novo a tua presença! Magnífica! Os seios tenros, redondos, perdendo-me. E o ventre? Magro — luzidia escultura de mármore branco. depois o fio vermelho desenhando-lhe figuras geométricas ao acaso no pescoço. O cheiro a frescura. A carne menos branca. O sangue mais intenso. Ergui-me. Gritei. O coração jorrava lágrimas.
E pus-me de novo a olhar o céu. As tuas formas pareciam redesenhadas na negrura do firmamento. As estrelas dos teus olhos cintilavam como nunca. Cada vez me sentia mais vazio, sem a espessura suficiente para me sentir vivo. Os meus ossos estalarem quando caí na tarimba. O colchão gemeu e lembrei-me que ainda te amava. Lá fora, a lua despia-se e um vasto cortejo de asas acenava para mim. Fechei os olhos. Pensei no bocado de carne que me faltava e, adormeci, imaginando-me já defronte do carrasco. O nó, ainda largo, roçava-me o pescoço desprevenido. O dia iria nascer e o meu sonho seria materializado.
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