a menina da torta de chocolate e a outra
Paulo Prazeres
Após um breve olhar dir-se-ia que era loira. Mas, essa menina que todas as manhãs se debruçava sobre o balcão — o meu balcão — para trincar a sua já habitual torta de chocolate, pavoneando-se com o seu ar triunfal de expedita dona de casa, na fase da menopausa, despertava-me certas sensações há muito perdidas. era como se todo o seu perfil me incomodasse. chegava mesmo a gaguejar nas alturas em que lhe espetava a magnífica torta de chocolate debaixo do queixo.
Aparentemente, dir-se-ia que eu estava apaixonado. Era-me bastante incómodo quando, todas as manhãs, ela, de compleições carnudas, nariz alongado, olhos negros, brilhantes, me perguntava com extrema presunção acerca do estado da torta de chocolate. E era nessas alturas que eu conseguia sentir esse sentimento profundo que é odiar. Detestava isso. Detestava aquela pergunta quase impertinente. Todos os dias o sangue me fervilhava nas veias perante tal situação. E a resposta era sempre a mesma, tal e qual a do dia anterior e o anterior a esse: «Fique descansada, menina Ilda, a torta está fesquinha».
Patético. Na verdade, tinha mais ódio à torta de chocolate do que propriamente à menina. Ela, por seu lado, era encantadora, uma verdadeira figura artisticamente trabalhada, de perfeitos seios redondos; de lábios espessos, muito vermelhos, onde, de vez em quando, os dentes despontavam uma candura quase surrealista; e tinha uma voz idêntica a uma partitura etérea de Vivaldi, onde o violino rápido da língua se espreguiçava cheia de sensualidade, pronunciando acordes límpidos sem qualquer ponta de dissonância. Efectivamente, dir-se-ia que eu estava apaixonado. Na verdade, odiava-a. E depois aquele gesto supérfluo de abanar a farta cabeleira (da qual já não tinha certeza da sua cor) quando, todas as manhãs, se despedia. Era terrivelmente arrogante, terrivelmente sensual, feminina. E eu gostava daquilo. Gostava de a ver dançar até à rua, beijar o sol ainda frio, encostar as pernas esguias uma à outra, remexer os pés escondidos nas botas escuras e desaparecer.
Depois vinha a outra: figura andrajosa retirada dos desenhos de Bilal, acostumada a piscar-me o pouco que lhe restava do olho esquerdo. Aparecia sempre a sorrir, com uma pele muito esmiuçada e de lábios cruentamente rasgados. E então esquecia-me das coisas boas da vida, da sensualidade que as manhãs me despontava e do odor fresco que a humidade me trazia. Ela erguia o nariz, farejava os odores que se remexiam na vitrina e aguardava. Era insuportável o cheiro que dela emanava. E todos os dias trazia aquele maldito esgar ao canto dos lábios, como se o seu sorriso não pudesse ser alguma vez alterado. Pedia então um pastel de bacalhau, mastigava ruidosamente e tornava-me a piscar o pouco que lhe restava do olho esquerdo. Ela não perguntava nada. Eu não lhe pedia nada. Depois arrastava-se sofrivelmente até à porta. Aquecia-se ao sol e desaparecia no estrépito da multidão.
Nestas alturas não sabia em que pensar: se no feitiço a que Deus me entregava ou no castigo com que o Diabo me punia. Costumava era limpar o balcão das nódoas de gordura que os clientes iam deixando e, pensava, isso eu sei, em como estava a ficar velho depressa demais.
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