uma mancha de sangue no sítio de um perfeito coração
Paulo
Prazeres
A fila de soldados não era mais do que uma linha de rapazes de
olhar frágil. Uma chuva miudinha caía sobre os seus corpos trementes. Os olhos,
alertas e devoradores, perscrutavam os fragmentos de uma vida interrompida. De
uma vida a quem estavam prestes a privar. Alguns dos soldados apresentavam
sinais de fadiga, mas nem por isso se deixavam trair por esse desejo famélico
de justiça. Poderiam ser homens e eram homens, mas tinham uma mancha de sangue
no sítio de um perfeito coração.
De vez em quando algumas luzes brilhavam ao fundo. O barulho das
explosões era por vezes entrecortado por momentos de silêncio total. O homem
que estava prestes a morrer já só pensava que tudo aquilo era uma cena de um
filme apocalíptico e que, além dele, todos os outros morreriam também. Nem que
fosse depois dele. Mas morreriam. Sempre. Nesse momento ele pensou: << ou
morro ou fico vivo para sempre >>.
O tiro que saiu da minha espingarda foi o primeiro. Um estampido
que apenas foi silenciado pelo matraquear das espingardas dos outros soldados.
O homem à minha frente, à nossa frente, sim, à nossa frente, porque tu também
lá estavas, meu amor, a segurar a arma, agarrada às minhas mãos. Mas como
estava a dizer, o homem à nossa frente não tombou logo. Soltou primeiro um
suspiro e depois caiu de joelhos. Os olhos presos no nosso olhar. Parecia que
nos queria recordar antes de os fechar completamente.
Não sei se morreu a agonizar. Os seus olhos fecharam-se pouco
depois, muito lentamente, como se resistisse a morrer. Como se tivesse mais
alguma coisa a dizer. E não temos todos? Há sempre coisas que ficam por dizer,
pontas soltas que mais tarde se emaranham umas nas outras quando já é tarde.
Como quando tu quiseste dizer que me amavas e não disseste e apenas disseste
que não conseguirias viver comigo. Não podíamos dar-nos um ao outro, disseste.
Então que fazes tu aqui? A ver este homem morrer, como eu, a meu lado,
segurando a arma para que não me caia das mãos? Que fazes tu aqui segurando-me
as lágrimas que me caiem num atropelo quase violento? E que fazes tu aqui com
os pés metidos na lama, embriagada com o cheiro do sangue que jorra do corpo
que eu matei, que nós matámos?
Ao meu lado, a fila de soldados começa a desfazer-se e com ela,
amiúde, a chuva parece querer tornar-se num fantasma. Também deixamos de ouvir
o barulho das explosões que, por vezes, brilhavam ao fundo entrecortado por
momentos de silêncio total. Mas agora sim era só silêncio. Até mim chega o odor
do sangue. As minhas botas são engolidas por uma mancha escura e espessa que
escorre do corpo do homem que matei, que matámos. Os teus sapatos ficam
manchados também. E as tuas pernas têm pequenos salpicos vermelhos desenhados
ao acaso.
A fila de soldados desaparece depois no recorte do horizonte.
Vejo-os afastarem-se como se tudo estivesse bem. Vejo as suas asas esvoaçarem rapidamente no ar em liberdade. Quero caminhar com eles, quero
saber o que sentiram no momento em que premiram o gatilho. Quero saber o que
lhes passou pelo coração no momento em que o homem soltou um último suspiro, no
momento em que o homem olhou penetrantemente para eles, para mim, para ti, mas
as tuas mãos não me deixam. E pensar que queria ter-te entre os meus braços,
entre o meu peito que cresce sempre alvoraçado quando me apertas as mãos, os
dedos, os lábios e a boca.
Não sei se é da guerra, não sei se é do frio como também não sei
se foi por ter morto um homem, mas o meu peito já não cresce tão fugazmente
como antes, nem o meu coração jubila, histérico, quando te vejo perto de mim,
nem longe de mim e os meus olhos já não rasgam a cor dos teus à procura de
vontades por satisfazer. Sei que sou um homem mas esta mancha de sangue que
tenho no sítio de um perfeito coração cresce demasiadamente célere.
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