terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

36.

e quando o meu corpo se erguia do teu


Paulo Prazeres







E cada vez que o meu corpo se erguia do teu havia uma porção de coisas que ganhavam intensidade. Não, não era apenas o teu corpo que crescia, como não era apenas as minhas mãos que se tornavam hábeis, era algo mais verdadeiro, algo que se estava a tornar assustador.
A princípio pensei que fosse o cheiro do teu corpo. Era como se atua pele fosse feita de um perfume fresco e doce. E era. Mas depois isso tornou-se parte de ti e eu habituei-me. depois pensei que fosse a maneira como os teus olhos brilhavam cada vez que o meu corpo se erguia do teu. Mas não. Os teus olhos sempre brilharam assim, tão intensos, tão cheios de riso. E os teus lábios sempre se abriram da mesma forma para mim, e a tua língua sempre lutou contra a minha, e os teus seios sempre se encolheram da mesma forma nas minhas mãos e a seiva do teu sexo sempre foi como um contentamento para o meu regaço.
Talvez eu esteja louco e não saiba quanto tempo mais ainda me resta para te dizer — e isto sem querer culpar ninguém — que a única coisa que me fazia perder a razão cada vez que o meu corpo se erguia do teu eras tu. Não era apenas a cor do teu cabelo, como não era apenas o brilho dos teus olhos, como não era apenas o calor dos teus lábios, como não era apenas o suspirar do teu corpo, como não era apenas o suco do teu ventre invadindo o meu que ganhava intensidade cada vez que o meu corpo se erguia do teu. Eras tu, mais nada. Eras tu, mulher, rapariga, garota, fosses o que fosses. Eras tu.
Mas que interessa isso agora que te foste embora? Não sei. Talvez eu seja culpado, talvez, não sei. Sempre me disseram que nunca se deve amar demais uma mulher, que pode ser perigoso. Talvez seja por isso que nunca mais te possa ver. Talvez seja por isso que agora estejas a sete palmos abaixo da terra com a marca das minhas mãos vincada no teu rosto. Talvez seja por isso que agora estejas morta. Talvez. Não tenho certezas, é verdade, mas isso pouco me importa. Estou cansado. Se calhar o melhor é ir dormir de seguida sem sequer tomar café.

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