o cheiro a velho que guarda os livros
Paulo
Prazeres
Assim que abri a porta senti aquele cheiro a velho que guarda os
livros. E, inevitavelmente, tive a sensação que iria encontrar-te. Mas não te
vi. Apenas alguns murmúrios que não os teus cresciam rente ao chão. E só depois
reparei nas páginas já muito amarelas dos livros a estenderem-se infinitamente
por prateleiras também elas infinitas. Mas de ti, nem um sopro sequer.
Quando afastei mais a porta algumas notas a rosmaninho
encostaram-se a mim. Depois, tomaram-me conta. Lembrei-me dos momentos antigos.
Dos copos com os amigos e das cartas vazadas em mesas de pedra. E depois
lembrei-me de coisas que o bom senso me impede de desvendar. E então vi-te: vem
– disseste, como que a completar o silêncio entre nós. Os teus gestos eram lentos.
Como num sonho, ou, como um sonho. E eu fui. Deste-me as mãos e de novo o
cheiro a rosmaninho e de novo lembrei-me dos momentos antigos.
Quis dizer que te amava mas não consegui. Talvez não quisesse
amar-te. Não sei. Ou talvez… talvez tivesse medo que me amasses. Encostei-me
então a ti. O teu cheiro a misturar-se com o cheiro a velho que guarda os
livros. Os teus lábios carnudos e firmes e sibilantes a cortarem-me a pele dos
ouvidos: porque voltaste? – porque me sinto só, quis dizer-lhe, mas apenas disse
mentiras: porque te amo. Mas também era verdade. Ou não era?
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