acontece que ontem não é hoje
Paulo Prazeres
Ontem escrevi um telegrama a dizer que a amava. Ainda não recebi resposta. Nem uma palavra sequer. Nada. O tempo avança como um louco. A noite cai. As estrelas rasgam o céu. De vez em quando, apercebo-me que estou só. Não que deteste isso, não. Apenas me faz sentir um pouco mais só.
Não me recordo do que bebi ontem. Talvez um vodka, não sei. Geralmente é o que costumo beber. Mas também já não sei se é isso que costumo beber. Não interessa. Sinto a cabeça prestes a explodir. E o telefone que não toca. O quarto começa a ficar frio. Eu começo a ficar nervoso. Por que será que ela não diz nada? Não me recordo já do que lhe disse. Pouco importa agora. Talvez não. A verdade é que tenho de deixar de beber. Já não tenho certeza de nada. Porra! Quem me dera não ter bebido nada.
O telefone toca. Não atendo. Deixo-o tocar até os meus ouvidos enlouquecerem. O telefone pára de tocar. Os meus pensamentos parecem agora ausentes. Sirvo-me de um vodka. Acendo um cigarro. Olho o céu e apercebo-me que Deus está a acenar para mim. Olho de novo para o telefone. Que se lixe, penso, também já não a amava. É bom que a vida tenha sempre destas coisas.
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