segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

03.

o ecran azul dos nossos pecados


Paulo Prazeres







O homem ajeitou a beata entre os lábios e recostou o tronco nu numa espécie de cadeirão de cabedal preto, enquanto surripiava um assobio malandro para uns seios grotescamente belos que dançavam, numa amálgama inebriante de espuma e dedos trementes, no pequeno ecran azul da TV, num daqueles tagarelantes anúncios sobre um gel de banho qualquer.
Quando uma voz, numa espécie de cântico erótico das ninfas de Camões, começou a cantar aquilo que parecia ser o sublime timbre de um corpo em êxtase, os olhos do homem, gordos e muito abertos, fixaram o ecran azul da TV numa espécie de gato assanhado. E enquanto a voz sibilava palavras implorativas de aquisição daquele maravilhoso gel de banho, acompanhadas de beijos em vão, onde os magistrais seios badalejavam de carne sumptuosa, sem estrias e duma apetência quase canibal, o homem, de olhar esgazeado, procurava na confusão irritante dos botões das calças, o contentamento exorbitante do seu pénis já a arder de excitação, como a expectativa parva dos gaiatos quando procuram o sexo escondido uns dos outros em jogos lamechas que os adultos proibem.
E quando os seus dedos, por fim já suados, encontraram a carne retesa do pénis e a cinza quente do cigarro lhe queimava as roldanas duras dos testículos, como sôfregas centelhas de fogo, num jogo hereje de pequenos calígulas esfaimados, a voz que saìa do pequeno ecran aul  da TV havia cessado de elogiar o maravilhoso gel de banho, como se uma abrupta violência de desdém tivesse tomado posse do ânus da TV.
E os seios, incólumes às garras ávidas do homem que tanto o haviam simulado gostos de esperma em ebulição, haviam também eles desgarrado do pequeno ecran azul da TV sabe-se lá para onde. E foi com desespero que o homem desviou o olhar para o pénis que, mesmo ali à sua frente, entre o aconchego terno das pernas, se amolecia como uma tira gelatinosa de retalhos franzinos.
O homem, quase enlouquecido, esmagou contra o vidro do pequeno ecran azul da TV o que restava do cigarro carcomido e ficou, em silêncio, a olhar para o logotipo do Telejornal que aparecia agora como uma visão sarcástica da sua infelicidade, enquanto praguejava o irreverente desejo que possuía em se masturbar defronte de um ecran de televisão, onde meninas babadas de anúncios parvos despiam o buço virgem aos olhares glutões da multidão.

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