voo
Paulo Prazeres
Havia já algum tempo que ali estava parado. A superfície negra da auto-estrada cintilava cada vez mais. Encostou-se ao capot do carro que ainda fumegava e olhou o céu muito branco. Alguns abutres pareciam suspensos lá em cima. Retirou um marlboro e prendeu-o entre os lábios. Procurou o isqueiro mas não o encontrou. A camisa começava a colar-se às costas. Uma mancha escura de suor precipitava-se abaixo dos braços. Uma cascavel passou a assobiar debaixo do carro. Os abutres ensaiaram um voo rasgado. E, ao longe, o estrépito de um motor a toda a brida.
Só se apercebeu que era o motor de um velho chevy de 45 quando o carro parou mesmo ao seu lado. Não tinha capota e era de um vermelho já muito gasto. Os estofos eram brancos e sem brilho. Várias latas de cerveja estavam empilhadas no banco de trás. E havia também um pequenos poodle cinzento.
A rapariga puxou os óculos escuros até à ponta do nariz e fincou os dedos no volante negro. Baixou o volume do rádio e enunciou um demorado convite com os lábios. E ele, que havia já algum tempo que ali estava parado, pareceu nem se importar com isso. Saltou para dentro do carro e meteu a mão esquerda na perna da rapariga. Ela carregou duas vezes no acelerador e o motor explodiu pela auto-estrada.
Havia agora uma brisa quente a fustigar-lhe os cabelos. Ele levantou o volume do rádio, pegou num isqueiro que encontrou no tablier e acendeu o marlboro. Soube-lhe bem sentir o fumo do cigarro enrodilhar-se na garganta. Nas colunas do carro Julian Cope gritava qualquer coisa em como ser-se um easyrider. Os abutres tinham desaparecido e em frente era o asfalto que ardia agora ainda mais.
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