as palavras da minha cabeça
Paulo Prazeres
O que eu sei, agora que é tarde demais, é que nunca deviamos ter falado. E uma palavra bastou. Uma só. Um único toque foi suficientemente forte. E eu que fui tão fraco. Não queria recordar esse momento porque, na verdade, ele dói. E dói mais ainda saber que tenho de o recordar, porque é necessário (e mesmo que o não fosse, recordá-lo-ia na mesma). Isto porque sou assim: agarrado às coisas. É-me difícil desfazer das coisas, quase impossível mesmo. E recordar é viver, é o que se costuma dizer. E eu preciso é de viver, de me embriagar e de te esquecer. Não se julgue que faço isto para me castigar, não. Faço-o para não me lembrar. Para não lembrar o quanto fui fraco, o quanto fui imbecil. Errar é humano. Sofrer também o é. É certo que estas palavras não passam de meras palavras. E no entanto, não o são. E se o fossem, seriam aquilo que eu quisesse, e nada mais. As palavras são-nos muito próprias, e se não perdoam aquilo que somos, pelo menos explicam. Para mim, ela é tida como um consolo para a alma. É por isso que todos os dias trago a poesia na bagagem. Ela é palavras, palavras e mais palavras ainda. E no entanto, não são só palavras. São sentimentos que me afloram a mundos tão particulares àquele a que tanto já me habituei. É que assim estou menos só, percebem?
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