apenas mais uma vítima
Paulo Prazeres
Olho lá para baixo e uma viagem infernal abisma-se-me, acutilante. E isso inspira-me terror. Que vou mergulhar num céu imenso, sem asas, eu sei; mas, é essa ansiedade de não saber se hei-de estar aqui ou trocar de lugar que me rasga o cérebro em derradeiros lampejos de infinita insegurança. Eu quero saltar. Eu sei que quero saltar... é necessário.
E depois, quando fixo ininterruptamente as vidas que se escoam lá em baixo, diante dos meus olhos bailam visões alucinadoras. Se pelo menos... se me calassem os pensamentos ao fechar os olhos, tentaria não me confranger com a harmonia de todas essas vozes que rasgam o ar e me penetram a carne, assustadoramente. Mas, eu não sou assim. Sou um desesperado.
Os meus ossos são já corais encarquilhados, aqui, suspenso no tempo... suspenso num tempo imóvel, onde tudo é tão diferente. Aqui, o meu corpo não se transforma. Aqui, num amplexo etéreo de solidão, a alma vagueia a outras latitudes, enquanto o corpo se mantem trepidante, angustiado nas frustrações próprias da carne. E, enquanto olho lá para baixo, tudo se reduz à minha própria insignificância: não fui ninguém, não sou ninguém, não serei nada!
A minha alma está despedaçada e tudo se esvai em pensamentos estranhíssimos. A minha glória! A minha glória era ser alguém junto de alguém. Será que não tenho direito a ela? Será que não sou filho de Deus? Um filho menor, talvez... não sei. Será porque já não sinto qualquer espécie de afecto por quem quer que seja? esse dissabor ensombrou-se-me como uma nuvem carregada de ódio...
Aqui, afinal, nada é perfeito. A lua continua nostálgica envolta na sua auréola de fogo... incógnita à minha postura de suicida indeciso. Aqui, perante a imagem invisível do Criador, confesso que não guardo rancor a nada. Sei que me vou espalhar por sobre o mundo, emaranhar-me nas vagas que o vento provoca e desfazer-me em pó... sei que vou ser esquecido, mas que importa? Confesso que isso me horroriza, mas que importa?
E esta noite... esta noite, que bela está para se morrer. Eu quero saltar... deveras que quero saltar. Deveras que quero sentir a pressão de Deus sobre todos os meus ossos quando tudo... quando tudo começar. Deveras que quero tocar em Deus!
A morte! Não será a morte o princípio do renascimento da alma? Porque penso em tudo isto, agora que a realidade se desvanece a pouco e pouco, agora que a realidade é cada vez mais irreal? Diz-me o instinto que é o receio da morte. Sempre pensei que a morte fosse uma orgia de demónios. Um deboche de crueldades! Agora... agora quero esquecer tudo. Quero esquecer aqueles que amei e não desfrutei. Quero simplesmente fazer-me ao mundo, unir-me à carne de Deus.
Faz-se tarde... o algoz aperta-me já as veias do corpo, muito lentamente... Quero esquecer. É triste ser-se sem ninguém.
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