é bom que nada fique como está
Paulo Prazeres
Não é um vício não, é uma necessidade. Acontece quando acordo humilhado, à procura do corpo que me faz falta. E é quase todos os dias. Umas vezes mais que outras. É quando não existe mais nada para além da frigidez da carne. É quando os cigarros se consomem apenas porque se consomem, nada mais. Não há uma razão credível para tal manifestação. É mais forte que a crença humana. E fracos somos todos nós, talvez extremamente passionais até. Eu, pelo menos, estou convencido disso. Sou um fraco, sim, um ser que se enfraquece, tal como o é beber para nos esquecermos, fumar para nos abstrairmos, amar para nos reconciliarmos com o nosso próprio eu. É como se me metamorfoseasse em algo para além daquilo que é racional, em algo assutadoramente imaginativo.
E a carne é fraca. Mais do que frígida, corrigo, é corrupta. E é a tua ausência que me estraga os pensamentos, que me faz ser corrupto. E quando acordo sou dilacerado por sumptuosos corrupios lúdicos. É verdade que me esforço por assim não ser, por me desabituar a eles, mas é-me impossível. É mais forte. Sinto então essa necessidade enorme que é a satisfação da carne. O prazer, esse, está longe de me ser negado. Satisfaço-me então como quem muito curiosamente se flagela a si próprio. É certo que também existem essas pequenas mulheres que nos fazem sentir um pouco além das nuvens, é verdade, mas não são elas as nossas eternas parceiras, são antes, pequenos bocados que se perdem por entre nós, homens. Contudo, é como se quer. Eu, por mim, até preferia. Era como se deixasse de dar amor, de me desgastar por banalidades que fazem parte de nós. Mas, não, não é assim.
O amor funde-se na nossa alma como um pedaço de pão que é involuntariamente impossível de não se trincar. Vive-se preso. É necessário. E é mais necessário ainda, isto sim, estar-se convictamente satisfeito, uma vez a plenitude não abranger, quiçá, o cachet do Homem. E é bom saber que não nos é humanamente possível voar mais alto. No entanto, é bom que nada fique como está.
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