se calhar…
Paulo
Prazeres
Parados na rua estão dois miúdos
que se entreolham.
À volta deles há uma imensidão de
prédios vazios.
Um carro amarelo dorme numa
esquina.
Os poucos marcos do correio que
ainda resistem estão assassinados.
Há um silêncio de morte.
Os miúdos entreolham-se de novo e
nada se mexe.
A lua está muito gorda e observa
tudo o que se passa à sua volta.
Nas portas dos prédios vazios
alguns vagabundos dormem o sono das bebedeiras.
Há cães que procuram comida nas
esquinas sujas.
O vento
começa a soprar.
O ar modifica-se.
E os miúdos beijam-se.
E eles são dois peões que a noite
baralha.
E eles embrulham-se com os cães,
com os vagabundos, com os prédios, com a sujidade.
E por último com a cidade.
Os seus corpos desnudam-se de
qualquer complexo.
E as suas bocas atiram mentiras
que ninguém escuta.
Mas, além dos cães e dos
vagabundos, quem é que mais ali está que escuta os seus desejos?
Se calhar… Deus observa-os com
tentação.
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