terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

56.

se calhar…


Paulo Prazeres







Parados na rua estão dois miúdos que se entreolham.

À volta deles há uma imensidão de prédios vazios.

Um carro amarelo dorme numa esquina.

Os poucos marcos do correio que ainda resistem estão assassinados.

Há um silêncio de morte.

Os miúdos entreolham-se de novo e nada se mexe.

A lua está muito gorda e observa tudo o que se passa à sua volta.

Nas portas dos prédios vazios alguns vagabundos dormem o sono das bebedeiras.

Há cães que procuram comida nas esquinas sujas.

O vento começa a soprar.

O ar modifica-se.

E os miúdos beijam-se.

E eles são dois peões que a noite baralha.

E eles embrulham-se com os cães, com os vagabundos, com os prédios, com a sujidade.

E por último com a cidade.

Os seus corpos desnudam-se de qualquer complexo.

E as suas bocas atiram mentiras que ninguém escuta.

Mas, além dos cães e dos vagabundos, quem é que mais ali está que escuta os seus desejos?

Se calhar… Deus observa-os com tentação.

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