terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

17.

um estranho numa terra estranha


Paulo Prazeres







Gosto da noite. Parece-me que o cigarro se consome com mais apetite. Até o vinho escorre com mais subtileza e há sempre aquela auréola cintilante a envolver a lua que tanto me apraz observar. E gosto do frio. É violenta a forma como a humidade se acumula na roupa. E há a chuva. Fresca, brusca, magnificamente pesada. E é de noite que me sinto sempre sem fôlego.
Por vezes, esqueço-me que sou terreno e grito palavras que não entendo. Os meus olhos correm sem norte e a cor do céu já não me interessa. Costumo adormecer enrodilhado a qualquer coisa, agarrado ao meu próprio corpo, sorvendo o ar que se espraia sobre mim. E é de noite que me sinto vivo. Esse vazio que me preenche os olhos simplesmente se desvanece quando a lua se recorta sobre a minha cabeça. E tal como agora, adoro observar o fumo do cigarro nas suas perpétuas volutas. Adoro sentir o vento cortar-me a carne, a chuva dilacerando-me a pele. É este o meu império!
Sinto-me sempre esbelto quando a noite cai. As luzes fazem-me sentir mais novo e os sons que até mim chegam são mais libertinos, mais pagãos. Recolho-me então a um canto qualquer da cidade e abandono-me. Aí, esquecido dos loucos que se agoiram entre si, costumo ser feliz. Acendo um cigarro, sirvo-me de uma porção de vinho e recosto-me a recordar naufrágios passados. E enquanto o odor do cigarro se revolve à minha volta, numa espécie de quase condescendência, apercebo-me que afinal ainda posso morrer. É esta a única certeza que me resta. Morrer é o único fim! Mas, por vezes, tenho dúvidas e, como tal, demoro-me a pensar naquilo que realmente possa existir para lá de todo o silêncio. Mas, eu não penso, divago e o que divago não recordo. A minha memória mostra-se estraçalhada. As recordações misturam-se com desejos e estes com necessidades.
É por isso que detesto as horas diurnas. Aí sinto-me enxovalhado por olhares expiatórios e não consigo divagar. Detesto entregar-me de mão abertas a um transeunte qualquer, sabendo que ele me olha com agonia, ofendido com a presença arrogante do meu hálito azedo. E, nestas alturas, quando o sangue se me esfria nas veias, só me apetece berrar-lhes ínumeras asneiras sem fim, não ligando a nada, nem mesmo à atenção desvelada de Deus. Ah! como detesto as manhãs, as tardes, o nascer do sol, a claridade insuportável do dia! E é nestas alturas que me sinto verdadeiramente moribundo. Apenas recordo que não tenho casa, nem filhos, nem mulher, nem nada. Limito-me a aguardar, muito sossegadamente, o tinir de uma moeda na palma da mão — apenas o suficiente para comprar mais cigarros, mais pão, mais vinho; o suficiente para poder gozar de novo a próxima noite.
Sei perfeitamente que não tenho necessidade alguma de continuar vivo. Essa suposta existencialidade que deve ser comum a todo o ser terreno a mim não se coaduna. É verdade e eu sei-o perfeitamente. Há muito que morri. Há muito que deixei de ter qualquer espécie de gozo. Limito-me apenas a vadiar, fumando cigarros, bebendo vinho e comendo pão. Não necessito de mais nada, nem mesmo do vosso bendito consolo, simplesmente nada!
Morri, e depois? Já ninguém me vê, já ninguém me ouve, já ninguém liga às minhas palavras. Chamam-me louco, bêbedo. Na verdade, sinto-me como um estranho numa terra estranha. E, apesar de tudo, sinto-me bem. Mas confesso que é ela — a noite — o subterfúgio das minhas mesquinhas leviandades, o subterfúgio das minhas angústias, das minhas merecidas glórias. É verdade que já pensei pôr fim à vida. É verdade que sempre desisti. Não consigo, tenho medo. Talvez seja cobarde, talvez não valha a pena matar-me. Sei que morri para a vida. Sei também que a vida não se me expirou. E é à noite que assim me recolho, pensando em tudo e não pensando em nada.
O coração dilata-se-me cheio de vergonhas. As lágrimas escorrem-me incessantes. No entanto, sei que algures lá em cima, Deus ri de mim. Talvez morrer não seja o único fim.

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