segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

02.

menina estás à janela


Paulo Prazeres







Todos os dias era a mesma coisa.
Ao longe, prostrada no parapeito da janela, onde o fumo do cigarro se esvaia esquecido entre os lábios numa melancolia sonolenta de desleixo, a mulher com quem sonhava todas as noites, entre guinadas de cólicas e escarros verdes nos lençóis desfeitos por marradas de desespero, sorria-me com os seus olhos de bochechas tenras, desesperada pelo nectar alcoólico dos meus beijos.
E todos os dias era a mesma coisa, como num cenário que se repete vezes sem conta, onde os actores se entredevoram de sobrancelhas franzidas, atentos às palavras mudas de um guião mal lembrado, ansiando os bibelots carnais dos dedos, a tocarem-se de desejos proibidos, como a voz de Nick Cave que emerge em espirais de paixão traiçoeira com breves intervalos de êxtase quase feliz; e eu, projectando o corpo para fora do meu invólucro de sono ficava sempre assim, quieto, tentando tocar-lhe os cabelos com a serpente rastejante da língua, antevendo inesquecíveis heroismos no calor gorduroso dos seus seios.
E todos os dias, após o flutuar das mãos, como que me acenando despedidas rápidas a favor de um novo encontro igual, ela desaparecia qual fantasma insensivel, espraiando o perfume sublime de um Chanel qualquer, enchendo-me a cara de saudades, enchendo-me o corpo de uma erecção quase surrealista, como as cores fílmicas de uma bobine estragada.
E todos os dias, numa desilusão hipócrita que me alimentava os sonhos que já não tinha, os seus imensos olhos de garota virgem davam lugar às órbitas grotescas de dois olhos que me devoravam avidamente, como uma serviçal  patética que se delicia com as pratas da patroa, no espanto parvo das grávidas apalpando o inchaço bobo das barrigas marcadas por embriões invisíveis.
E todos os dias apetecia-me abusar do vodka do que ficar ali, inquieto, a flutuar as pestanas numa mulher que fora escarrada pelo útero de uma puta qualquer; que me roubava todos os dias, numa inveja ferverosa de cigana, o digestivo paradisíaco das minhas frustrações de solteiro.

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