segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

01.

dissertação sobre a incompreensão de se ser um ser


Paulo Prazeres







Vinham lá de cima, onde as nuvens irrompem como seios magistrais de algodão branco e onde uma maresia convulsiva de gotas frias escorre, por vezes, sobre as nossas cabeças indefesas, indiferentes ao olhar carnudo de Deus, indiferente ao nosso despropósito destino de estarmos cá em baixo.
Vinham lá de cima, onde o azul cristalino do céu reside numa monotonia parva de adolescente, atormentado pelo inglório estrebuchar agudo de um trovão qualquer, a espreitar no buraco tenro de uma nesga de céu, o seu olho tresloucado.
Vinham lá de cima, como jactos prepotentes de carne flácida, expondo gengivas gordas e lábios vermelhos de ânsias perdidas, ainda a gotejarem a saliva espessa de uma angústia que se sabia jamais dissolver.
E lá vinham eles, bem lá de cima, de plumas esvoaçantes num tropel indegesto de penas e carne, atrofiando o ar em vôos cáusticos de soldados suicidas, abrindo as bocas na busca insensata do sangue que o meu corpo parecia gritar.
E lá foram eles, bem lá para cima, no papel insano de carrasco, carregando o peso insuportável da minha carne, a pingar gotas incontidas de sangue fresco, espalhnado um odor nauseabundo num céu que se queria cristalino, num céu que se queria são, livre de rebeldias.
E eu, impotente na minha descrência de humano, sem forças para repelir as garras que se cravavam no meu peito, observava a inutilidade da minha existência num absurdo silêncio de satisfação, saudando estes seres que me devoravam, como se estivessem a libertar as estrias do meu corpo do sofrimento que era viver.
Não me assustei quando o coração parou de bater.
Não me assustei quando todo o meu corpo desfaleceu num plasma imenso, onde a silhueta do meu ego sobressaía já sem interesse. Não me assustei quando o corpo escorreu pelas bocas ensanguentadas das bestas e ficou a pairar nas abas do céu, como o tronco despido de uma bailarina em lentos soluços de arrebatamento.
Não me assustei quando percebi que havia ganho a morte, que havia ganho a redenção imortal dos meus pecados. As reminiscências eram agora lembranças distorcidas de uma vida que já não sentia qualquer desgosto em abandonar, que não sentia pena por saber que estava morto.

Sem comentários:

Enviar um comentário