uma ligação directa ao sistema nervoso
Paulo Prazeres
Ligo a televisão e nada. Apenas um ruído insustentavelmente maçador. A luz que me invade as retinas é fulminante. Não se passa nada. À minha volta tudo parece estático: as paredes que não respiram o odor bafiento dos anos perdidos; os móveis que não estalam as constantes chagas do envelhecimento e o chão que não range perante o meu peso. Tudo parece constrangedor, sem vida. Até a minha própria respiração me assusta. E, enquanto o tempo passa, enquanto os meus nervos irrompem numa marcha trepidante de aflição, inatala-se um estado de vazio no meu consciente.
Não vejo nada e isso aterroriza-me. A televisão faz parte do meus esqueleto. É-me impossível estar desligado dela. É-me necessário interligar-me a ela. É-me necessário que os olhos transmitam toda a possível radiação que dela emana. È necessário que ela me veja. Mas ela está morta e as mãos tremem-me cada vez mais. Sinto-me angustiado. Passo as mãos pelo ecran. Nada. Apenas as suas vibrações penetrando-me a carne. Sinto-me melhor. O coração pulsa agora de regozijo. As minhas ansiedades sobrevêem empolgantes e as teclas dos dedos param de estrebuchar.
O ecran grita. Não, é o ruído que aumenta de uma forma ainda mais maçadora. Não fosse as vibrações que as minhas mãos recebem já teria posto fim à vida. Não fosse o calor que por mim adentro se espalha já teria posto fim a muitas vidas. É então que surgem o som, as vozes, as imagens e tudo fica diferente. O paraíso entra-me pela moleza do corpo e um certo contentamento ilumina-me as retinas Tudo à minha volta rodopia agora num caleidoscópio vivaz. Sinto-me vivo. Sei que hoje não vou matar ninguém.
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